O filme mais importante do MOTELx este ano é, sem dúvida, ‘The Woman’ de Lucky McKee.
Por um lado, porque marca o regresso de um dos mais marcantes autores do fantástico dos anos 00’s. Lucky estreou-se nas longas-metragens com o arrepiante ‘May’ (2002) onde seguíamos uma rapariga introvertida e estranha que começa a matar pessoas para, com as suas melhores partes, construir um gigantesco boneco. Angela Bettis está inesquecível como May – numa performance das mais marcantes do cinema de terror contemporâneo.
A sua obra seguinte, ‘The Woods’ (2006, O Bosque Maldito) passava-se num internato de raparigas dos anos 60, junto a um bosque onde algo terrível se escondia. Se ‘May’ foi uma obra de culto imediata do horror, ‘The Woods’ estreou cá no Fantasporto mas foi recebido com muito cepticismo. No entanto, os anos têm vindo a trazer “compreensão” a ‘The Woods’, que já é visto como uma obra injustiçada do terror recente.
Lucky realizou ainda o episódio ‘Sick Girl’ para a série ‘Masters of Horror’ (série de contos de terror que contava com um realizador convidado em cada episódio) e em 2008 assinou ‘Red’, adaptação do livro do polémico de Jack Ketchum. Nele seguimos um homem solitário que persegue três jovens para vingar a morte… do seu cão. Brian Cox dá aqui uma grande performance, mas o filme não cativou o público.
Em 2011, no festival de Sundance, estreou o seu novo filme, ‘The Woman’. Esta obra conta novamente com Angela Bettis, desta vez como a mulher de uma família de uma pequena cidade americana que rapta uma mulher selvagem que encontra no bosque. Esta família moralista vai tentar civilizar à força esta ‘fera’ humana e com consequências dramáticas. Mais uma história forte vinda da caneta de Jack Ketchum, com o destaque a ir para a actriz Pollyanna McIntosh (que está no MOTELx também no filme ‘Burke and Hare’) – e que repete aqui a mulher selvagem de ‘Offspring’ (2009), filme escrito por Ketchum, do qual ‘The Woman’ é a sequela.
A violência psicologica e gráfica do filme é tão intensa, que a sessão em Sundance ficou marcada por um homem que insultou Lucky McKee no final do filme, o qual considerou um ultaje.
‘The Woman’ está a percorrer os festivais de cinema fantástico do mundo (esteve no Fantasia no Canadá e vai estar em breve no Strasbourg Fantastic Film Festival) e tem vindo a recolher críticas muito entusiastas por parte da crítica e do público especializado. No entanto, o estatuto de “filme de tortura” tem vindo a assombrar o filme, que também colheu críticas muito duras por parte de fontes mais moralistas e também de adeptos do fantástico fartos do excesso de violência a que o género tem vindo recentemente a recorrer. No entanto, parece que o realizador de ‘May’ finalmente conseguiu repetir o sucesso e obter um impacto semelhante ao da sua estreia.
O c7nema falou com Lucky McKee esta semana, antes da estreia do filme em Portugal no Motelx.
Realizaste ‘May’, ‘The Woods’ e ‘Sick Girl’ para o Masters of Horror. Agora surge ‘The Woman’. Todos estes filmes envolvem mulheres perigosas em situações perigosas. O lado negro das mulheres é algo que te atrai?
Penso que todas as facetas das mulheres me atraem. Quando realizei curtas-metragens na escola de cinema percebi que era muito bom a lidar com actrizes. Ao que parece, agarrei-me a isso.
‘The Woman’ marca a segunda vez que estás a adaptar o Jack Ketchum. Como descobriste esta história e o que te levou a querer torná-la num filme?
Eu fui originalmente convidado para realizar uma sequela de ‘The Offspring’ (filme de sobrevivência sobre uma família capturada por canibais, realizado por Andrew Van Den Housten e baseado numa história de Jack Ketchum). Eles gostarem das minhas ideias, e então eu e o Jack Ketchum escrevemos juntos o livro e o filme.
Este é um filme muito forte e violento. Não tinhas medo que este tipo de violência fosse distrair o público do verdadeiro objectivo? Que fosse assustar espectadores que podiam ter interesse na sua mensagem? Um pouco comoo que aconteceu em Sundance…
Antes do mostrar o filme pela primeira vez a um público estava muito preocupado que fosse mal interpretado. Felizmente, a maioria das pessoas percebe que estou a mostrar o lado negro do comportamento humano, e não a promovê-lo.
Existe uma mensagem política em ‘The Woman’ ou é este um verdadeiro filme de género?
Eu não faço “política”. Faço filmes sobre pessoas e a forma como eu as vejo.
Como convenceste a Pollyanna McIntosh a aceitar ser uma personagem tão difícil de interpretar, tão violenta?
Ela já tinha estabelecido a personagem no filme anterior (‘Offspring’, 2009), mas eu queria garantir-me que ela tinha material novo e provocador com que trabalhar. Ninguém gosta de se repetir. Ela é uma actriz fantástica.
Foi difícil dirigir as cenas mais intensas?
Lucky: Penso que foi mais difícil para mim do que para os actores que as estavam a viver. Eu levo cada momento muito a sério e procuro os momentos exactos de forma a criar o ambiente certo e o significado certo para o que estamos a fazer.
O resultado final surpreendeu-te?
Bem, o filme foi editado em minha casa ao longo de alguns meses, portanto a resposta é não. O que me surpreende são as reacções físicas e emocionais do público quando o vê. Eu sabia que o filme era assustador, mas não tinha consciência do impacto que teria.
O “terror de tortura” (também conhecido por “torture porn”) anda a dominar o cinema fantástico independente. Pensas que isto é uma forma do cinema indie marcar uma posição?
Eu penso que histórias boas e originais e de excelente execução (“excellent filmmaking”) são a única forma do cinema indie marcar uma posição.
Qual é a tua opinião em relação a ‘A Serbian Film’ (filme-choque de 2010 que tem sido banido em diversos países e quase fez com que o festival de Sitges fosse cancelado) e a polemica que gerou?
Eu ainda não vi o filme. Não está disponível nos EUA e “eu não ‘torrento’” (“Lucky Don’t Torrent”).
O teu filme estreia esta semana em Portugal, no MOTELx. Conheces o cinema português ou o nosso país?
Infelizmente não… tenho de corrigir isso.
Tens projectos futuros?
Estou a trabalhar em alguns projectos, mas ainda é muito cedo para falar do que quer que seja.
Algum conselho para jovens realizadores que nos passam estar a ler?
Sejam honestos consigo mesmos e com aquilo que sentem que sabem mesmo fazer. Não tenham medo de pedir ajuda onde precisam. Fazer cinema é colaboração.

