Numa entrevista ao C7nema, o realizador turco Emin Alper, que concorre ao Urso de Ouro com Salvation (2024), revelou que İlker Çatak, cineasta alemão de origem turca responsável por Yellow Letters (2024), também na competição principal da Berlinale, partilhou consigo o guião do filme ainda antes de o filmar. Segundo Alper, a história de Yellow Letters — centrada na repressão estatal sobre artistas e professores que criticaram o governo — está intimamente ligada à sua experiência pessoal.
“Em 2016 e 2018 houve uma grande purga nas universidades turcas. Muitos amigos meus foram afastados. Eu não fui despedido porque o reitor nos protegeu, mas senti o perigo”, explicou. “Fiquei impressionado por alguém estar a contar essa história. Na Turquia não se pode falar abertamente dessas purgas. Dizer que foram violações dos direitos humanos é ultrapassar uma linha vermelha, porque significa que está a defender os direitos de terroristas. Como artista, movemo-nos num espaço limitado. Há pressão. Já não estou na universidade, mas continuo a senti-la.”
Realizador de Behind the Hill (2012), Frenzy (2015), A Tale of Three Sisters (2019) e Burning Days (2022), Alper considera que, por enquanto, o cinema de autor ainda escapa ao ”radar” mais direto das autoridades, desde que não toque em temas considerados tabu, como as questões LGBTQA+. No entanto, sublinha que o contexto pode mudar a qualquer momento: “Posso trabalhar com relativa liberdade, mas o cenário pode alterar-se de um momento para o outro”. Nesse sentido, um filme, uma canção ou um livro que ganhe grande visibilidade pode transformar-se subitamente num alvo. “Se ganhar o Urso de Ouro posso ter problemas”, comenta, entre o sério e o irónico. “Mesmo assim, quero ganhar.”
Quanto ao risco de falar abertamente fora do país, admite que tudo depende das circunstâncias. Até agora nunca enfrentou consequências por declarações feitas em festivais internacionais, mas reconhece que nada é garantido: até uma publicação aparentemente inocente nas redes sociais pode, em determinados contextos, tornar-se problemática.

Baseado num caso real ocorrido na Turquia em 2009, Salvation leva-nos a uma aldeia montanhosa em permanente tensão silenciosa com uma cidade situada no vale. À medida que rumores de invasões de terras e presságios se acumulam, instala-se um clima de paranoia coletiva. Sem uma distinção clara entre sonho e realidade, o filme explora como o medo, o ressentimento e a retórica religiosa podem legitimar a violência. “Gosto que estejam a comparar os acontecimentos do meu filme à situação em Gaza e até aos ataques da ICE nos EUA. Essa era a minha intenção, e fico contente por isso ter sido percebido. Desde que comecei a produção, o filme tornou-se cada vez mais atual, porque quando o escrevi ainda não existia a intensidade da guerra entre Israel e a Palestina que vemos hoje.”
Já sobre a questão de como é que as pessoas podem agir com tanta crueldade, Alper diz que importa perceber de que forma determinados líderes conseguem mobilizar populações inteiras contra alvos específicos, criando inimigos e alimentando ressentimentos. Foi essa inquietação — mais do que a dimensão meramente factual do caso real — que o levou a avançar com esta narrativa de escala local, mas de eco universal.
O Festival de Berlim termina a 22 de fevereiro.


