“Quero mostrar a liberdade de envelhecer”, diz Maryam Touzani sobre “Calle Malaga”

Com Carmen Maura no papel de uma mulher pressionada a vender a casa onde sempre viveu, o novo filme da realizadora marroquina parte de uma rua real de Tânger para falar de pertença e herança cultural.

Uma casa, uma rua e uma cidade podem tornar-se marcas profundas da identidade, coladas à nossa pele e inerentes ao nosso ser. É a partir desse princípio que nasceu o novo filme de Maryam Touzani, Calle Málaga, que chega esta semana (dia 6 de agosto) às salas de cinema nacionais.

Centrado na história de Maria Ángeles (Carmen Maura, sempre a deslumbrar), uma mulher de 79 anos que vive desde sempre na “Rua Málaga”, na medina de Tânger, e que se vê pressionada pela filha, que é enfermeira em Madrid, a vender a casa para resolver problemas financeiros.

A rua e a casa não são apenas coordenadas geográficas, mas memórias que respiram (e transpiram) na protagonista. A Calle Málaga existe na realidade e a avó da realizadora marroquina viveu ali durante anos, transportando nela uma mistura cultural herdada: raízes espanholas, corpo e alma marroquinas. 

Carmen Maura

Nesse sentido, a casa que habita é mais do que cenário: “O apartamento é uma personagem”, disse a realizadora ao C7nema, no último Festival do Cairo, onde o filme competia: “Os objetos, como um velho gira-discos que se torna central no filme, quase se veem, quase respiram. Transformam-se em cinquenta anos da vida dela.” Por isso Touzani quis filmar num apartamento real, no coração da cidade antiga, para que se sentisse a respiração de Tânger e da própria Maria Ángeles, interpretada por uma Carmen Maura em estado de graça.

É do conflito com o que fazer à casa que esta mulher e a filha, esmagada pelo custo de vida, pelo trabalho e pelos filhos, que o filme ganha pertinência, opondo memória e identidade, na forma de uma habitação, a património, investimento e escape possível ao sufoco financeiro. 

Com a propriedade em seu nome, a filha decide vendê-la contra a vontade da mãe. “Não é sobre culpar nenhuma das duas mulheres. É sobre compreender cada uma na sua realidade.”, explica Touzani, acrescentando que a modernidade que exige eficiência económica choca frontalmente com a fidelidade ao lugar que moldou quem somos hoje.: “Para a Maria Ángeles, Tânger é o seu pequeno paraíso. Não precisa de mais. Fala com os vizinhos, vê amigos de décadas, o sol brilha. Há uma douceur de vivre e uma ligação humana que ainda existe ali. Nas grandes cidades, compras tudo online, já não encontras o merceeiro. Essa ligação humana desaparece. Em Tânger, pelo menos em certas zonas, ainda existe. Tenho alguma nostalgia disso”, explica a realizadora.

Carmen Maura entregou-se à personagem com a mesma busca de verdade que orienta Touzani. uma cineasta que fala espanhol desde a infância, mas que só agora se aventurou no seu primeiro filme nessa língua. Para isso, ela seguiu para Tânger semanas antes das filmagens, absorvendo os sons, os cheiros e a energia das ruas e do apartamento. E à semelhança do que se viu, por exemplo, em O Último Azul, de Gabriel Mascaro, Touzani queria mostrar um envelhecimento livre, cheio de desejo e humor, que Carmen Maura aceitou enfrentar, mesmo quando alguns tabus vieram ao de cima. Como recorda o produtor Nabil Ayouch, houve um momento em que a atriz famosa por múltiplos papeis no cinema de Pedro Almodóvar perguntou: “Tenho mesmo de ficar nua?” Touzani respondeu que não se tratava de apenas mostrar nudez, mas a alma e a liberdade de uma mulher que, no fim da vida, recusa encolher-se perante convenções. “No início estava assustada. Nunca tinha feito isso em toda a carreira. Fomos a Madrid falar com ela. Explicámos que sim — não era gratuito. Era essencial para o que queríamos expressar: a liberdade que vem com a idade, deixar-se ver, afirmar ‘isto sou eu’. Ela percebeu e aceitou. No final, sentiu que era empoderador, que estava a defender algo.

Carmen Maura e Marta Etura em Calle Málaga

A realizadora sente uma necessidade profunda de representar a velhice de forma diferente da que domina o cinema: “Existe uma enorme injustiça no modo como a velhice é apresentada. Há expectativas que não correspondem ao que desejamos à medida que envelhecemos. Quero mostrar a liberdade de envelhecer conforme sentimos, não conforme a sociedade exige.” Maria Ángeles liberta-se: “Torna-se mais consciente do corpo, da sexualidade, do prazer.” E Touzani insiste na urgência de dar visibilidade a corpos envelhecidos: “O cinema costuma esconder corpos envelhecidos. Eu quis mostrar que envelhecer é belo e que é um privilégio.” Lembra ainda algo pessoal: “O processo de envelhecer, para mim, é algo bonito. Acho que tendemos a ter medo, mas é um privilégio. Não vi a minha mãe envelhecer tanto quanto teria querido, e talvez me falte isso também. As rugas, as marcas no corpo são testemunhos da vida que tivemos o privilégio de viver. Queria celebrar a vida depois do envelhecer, celebrar a velhice, celebrar os corpos envelhecidos, dizer o quão belos eles são.

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