Com uma enorme espessura poética e carga filosófica nas imagens, sons e palavras que produz, Félix Dufour-Laperrière tem se afirmado no cinema de animação com uma voz ímpar. Depois do documentário Transatlantique (2012), e da animação Ville Neuve (2018), fundiu as duas formas em Archipel (2021) – um ensaio sobre a memória coletiva do Québec que lhe trouxe amplo reconhecimento internacional.
Agora, em La mort n’existe pas (2025), estreado em Cannes e distinguido no Festival de Animação de Ottawa, o realizador cruza novamente política, filosofia e intimidade numa história de ficção, seguindo Hélène, uma militante que abandona o seu grupo após o fracasso de uma ação armada e, isolada na natureza, é assombrada por Manon, antiga companheira que a obriga a reconsiderar convicções e afetos.
Estivemos à conversa com o realizador e ele falou-nos da culpa e da ternura, da violência e do amor, das urgências políticas e ecológicas que atravessam o seu cinema e também da forma como a animação lhe permite transformar símbolos, cores e memórias num espaço mental aberto ao espectador.

O seu filme fala muito de culpa. Como explorou isso?
É sobre a culpa — talvez a culpa que existe no compromisso, na responsabilidade das relações que mantemos. Penso que é um filme de paradoxos: é sobre culpa, mas também sobre o lado luminoso das relações e do compromisso. É, ao mesmo tempo, um filme sobre morte e vida, sobre amor e violência. Existe sempre uma parte de culpa associada a qualquer relação, responsabilidade ou compromisso.
O filme questiona se é possível o amor no mundo atual. Acha que ainda o é?
Pergunto-me se o amor é possível com a ansiedade que carregamos em relação ao mundo. Tenho a impressão de que o amor e a amizade nunca foram tão necessários, mas talvez já não sejam suficientes para salvar o mundo no caminho em que parece estar. O amor é pessoal, mas também tem um aspeto coletivo. O mundo habitável constrói-se através das relações, dos laços, da amizade e do amor. No entanto, isso pode não bastar para garantir que todos possam viver nele. Esse é o paradoxo do filme: o desejo de uma vida doce em confronto com as limitações dessa mesma esperança.
Os seus filmes trazem sempre questões políticas, basta pensar no Archipel. Aqui, além disso, há ecologia e filosofia. Gosta de juntar estes mundos?
Fazemos filmes que se parecem conosco. Este projeto evoluiu ao longo de quase dez anos. Eu próprio mudei: envelheci, tive dois filhos e os temas que trato — o compromisso, a violência — também mudaram. Tentei estar atento às urgências do nosso tempo: as climáticas, as sociais e as humanas. O filme foi sempre um objeto em movimento durante a sua criação e acabou por carregar muitas das minhas inquietações e convicções.
Louis Garrel disse-me, em 2022, que temia que aparecessem jovens ativistas que pegassem em armas para defender o mundo. Tem também essa preocupação?
É paradoxal pensar que esgotamos tanto o vivo — a natureza, mas também as pessoas. Entrámos numa espiral muito brutal. A questão ambiental e a social estão ligadas. O planeta não precisa de nós para existir, mas a vida é bela porque o mundo é habitável, porque as pessoas podem viver nele. O filme procura afirmar a decência necessária e o partilhar necessário para que este mundo continue habitável. Mostra uma violência frontal, porque essa violência já existe e muitos sofrem-na de forma brutal.
E como pensou em mostrar essa violência em animação?
A animação cria uma distância: não são corpos reais. Mas não quis que a violência ficasse sem consequências. Quis mostrar a brutalidade para quem a sofre e para quem a comete, sem fazer dela um espetáculo. Trabalhei muito com animais para a encarnar: o colibri, pela sua fragilidade, delicadeza e valor precioso; os coiotes, os lobos e as ovelhas, pela fisicalidade imediata. Isso permitiu criar cenas de devoração e confronto sem impor esse sofrimento às personagens humanas, mantendo ao mesmo tempo uma dimensão mítica e simbólica.
Quais foram as suas influências nessa abordagem simbólica?
Muitas, conscientes e inconscientes. Quis trabalhar com símbolos — os animais e as estátuas. As estátuas representam a oposição entre o fixo e o movimento, o vivo e o imóvel. Questionam também a autoridade: quem decide as poses, quem define os símbolos, quem fixa as imagens no tempo? É contra isso que os jovens lutam: querem que a vida continue em movimento.

Como pensou as cores no filme?
Desde o início concebi o filme como uma sequência de cores. Trabalhei com uma paleta de 40 cores pintadas em papel, usada em todas as sequências. Cada parte do filme tem a sua sub-paleta. Foi um trabalho rigoroso, mas também intuitivo e prazeroso, quase como o de um pintor.
Escreve já a pensar na estética?
Metade, metade. Há sempre imagens, cores e formas na escrita, mas também coisas que descobrimos durante a criação. É o prazer de trabalhar em equipa durante três anos. Descobrimos muito em conjunto.
Qual foi o maior desafio?
O financiamento foi difícil, por tratar de um tema exigente, mas consegui. O maior desafio foi manter a mesma energia durante três anos e meio. A produção foi artesanal, feita à mão, com uma economia modesta, mas com muita inventividade e esforço coletivo.
Os seus filhos já viram o filme?
Escrevi-o a pensar neles. Quando comecei, ainda não tinham nascido; quando terminei, já estavam lá, vivos e com o futuro aberto. O filme carrega essa dualidade: a ternura e a inquietação sobre o mundo que lhes deixamos. Penso muito na responsabilidade que terão de assumir e na violência que já existe à sua volta.
Vivemos num mundo desigual, marcado pela urgência climática. Ainda acredita que é possível mudar?
Não tenho soluções. Sou um pessimista que ama a vida. Penso que devemos proteger o essencial da vida para o maior número de pessoas. Vejo uma perda de essência, uma desconexão da realidade — como quando se separam famílias em fronteiras. O filme é também um apelo ao real: ao real das relações, ao real do mundo, ao real do político.
Já tem um novo projeto?
Sim, um filme narrativo sobre ordem e desordem: nas relações íntimas, nas classes sociais e na arte. Explora o paralelo entre razão e loucura, controle e abandono, tanto na vida pessoal como coletiva.

