As salas de cinema portuguesas preparam-se para uma viagem pelo deserto. O filme: Sirât, um dos grandes do ano. E o guia: Oliver Laxe, que ofereceu ao C7nema uma reflexão profunda sobre o seu processo criativo, a natureza do tempo, a morte e a transformação. Em declarações recolhidas no Festival de Cannes, logo após a estreia da sua quarta longa-metragem, Laxe falou com a mesma intensidade com que somos levados pelo seu filme em transe.

Num deserto onde a cultura das raves vai revelando as personagens, Oliver Laxe conduz-nos pela busca intensa de uma jovem desaparecida. Luís (Sergi López), um homem marcado pelo desespero, parte para Marrocos com o filho pré-adolescente, Estebán (Bruno Nuñez), e a cadela Pipa, a única que nunca duvida do caminho, em busca da filha desaparecida há seis meses. Enquanto percorre festas no deserto e se cruza com tecnómadas, ele vai mostrando o retrato da jovem, esperando um reconhecimento que nunca vem. Entre palavras de conforto e pistas vagas, o pulsar obsessivo da música trance, associado a uma paisagem desértica, leva-nos pelo primitivo e tribal. No pano de fundo, uma guerra mundial desenrola-se em surdina — apenas audível em rádios mal sintonizadas, notícias truncadas sem contexto, e invasões do espaço por militares em alvoroço. Mas é no deserto, entre luz, som e movimento, que esta jornada humana atinge o metafísico e a transcendência.
“Um dia tivemos uma tempestade de areia e a maior parte do equipamento estragou-se“, recorda o cineasta, que anteriormente visitou Marrocos para filmar Todos vós sodes capitáns (2010) e Mimosas (2016). “Mas o momento mais complexo foi mesmo a filmagem de uma cena crucial no topo da montanha. Não tínhamos um mapa, nem um guia, para o que queríamos fazer em termos de cinema. Apenas tínhamos a necessidade de estar lá.“
Essa experiência, de expor-se ao desconhecido, é central na sua prática. “Gosto de ir aos meus limites“, diz-nos. “Este filme mostra como vejo a vida e como entendo que ela dialoga conosco. Há muito por aprender e crescer. E tudo o que acontece — mesmo o trágico — é uma oportunidade para conhecer, para crescer.“
Em Sirât, as personagens são confrontadas com a perda profunda, mas, segundo Laxe, “com tempo e distância, há algo de benéfico nisso“. Para ele, a morte não é um fim: “É uma porta. Uma porta que te permite falar com maior clareza sobre a vida.“
Entre o tribal e o moderno: a banda sonora de Sirât

Para Laxe, a música não é fundo. É estrutura. É alma. A música desempenha um papel fundamental em Sirât e Laxe vê na música trance uma ligação entre o tribal (e tradicional) com o moderno. “A música eletrónica está conectada com a modernidade, mas as suas bases tribais são antigas e tradicionais. Dentro de mim há uma batalha entre tradição e modernidade.” A banda sonora do filme foi concebida por Kangding Ray como uma jornada: “Fiz um casting de músicos e ele foi perfeito. Tem um som que traz raiva nele. E eu tenho raiva. Um artista é alguém entre um terrorista e um santo. Às vezes traz com ele uma grande empatia pelos outros, outras vezes um grande sentimento de inadaptação. No início do filme, era preciso usar esta música techno que trazia a raiva e até demência, com um kick mais pesado. Queria convidar todos a uma visita mais transcendental, imaginando como seria o primeiro som do universo. Depois vamos do melódico ao não melódico.”
Realizador ainda do brilhante “O Que Arde” [ler entrevista], cada um dos seus filmes é, para Laxe, “um rito de passagem para mim mesmo“. O processo criativo é um processo de descoberta. “E convido o espectador a ir comigo.” Na verdade, ele não se vê como um autor que impõe uma visão, mas como alguém que caminha em busca de si: “O cinema tem de transcender algo. Não procuro ser um autor. Isso é uma consequência.“
Um reset esperado à humanidade
A ideia de uma guerra paralela aos eventos do filme vem desde o início da escrita do guião e, segundo ele, “não é preciso ter uma grande intuição para perceber que estamos à beira do fim. Existe no ar algo que nos avisa disso.” A cultura das raves, que frequenta, fala num reset [Recomeço] necessário. “Será duro, mas será bom. Nós, humanos, não conseguimos mudar por vontade própria — a vida vai forçar-nos a isso.“

Para o cineasta, o seu maior medo é mentir a si mesmo. E tal como as personagens de Sirât que ajudam Luís na sua demanda, ele não quer participar na linguagem da guerra. Quer outra forma de existir. Se o “Sirât” do título se refere a uma ponte entre o paraíso e o inferno, para Laxe o cinema é uma ponte entre a cultura popular e a transcendência: “Podemos explicar coisas magníficas de forma vertical, mas com uma linguagem horizontal. Os artistas têm de ter generosidade. Descer do cavalo e ajudar o espectador a subir connosco.” É por isso que gosta do cinema de género: “É uma forma de caminharmos a cavalo juntos.“
“Não acredito no progresso como o entendemos“, conclui. “A estrada em que caminhamos está encerrada. Um radical é alguém que salta para o abismo para se reconectar consigo mesmo.” E Sirât, como todos os seus filmes, foi um salto. “Foi ótimo para me conectar comigo. Tenho menos véus. Estou menos agarrado à imagem que tenho de mim. E com isso, sou mais livre. Pelo menos espero que sim — e não seja só uma idealização minha.“
A El Deseo e o apoio de Pedro Almodóvar
Descrevendo Sirât como um filme “corajoso”, Laxe diz que vagueia entre a linguagem e não linguagem, narrativa e poesia, autor e a peça de arte. “O filme tem sempre de transcender algo. Gosto muito do cinema dos anos 1970, pois captura os medos e sonhos da era. O meu filme tinha de expressar algo do nosso tempo e penetrar no espectador”.
Dado o sucesso do seu filme anterior, O Que Arde, cruzou-se várias vezes com Pedro Almodóvar em festivais e entregas de prémios, conectando-se com ele e fazendo da El Deseo a produtora-chave a quem mostraria o guião quando o terminasse. “Ele é um bom colega e quer realmente o melhor para nós. A El Deseo é um negócio de família. É uma estrela, mas muito humana. Este é um filme muito arriscado. Mas isso não me importa (risos). Há sempre uma rede na vida. Se não aceitarem um filme meu em Cannes, ou acontecer outro desastre, sei que a vida vai me agarrar.”
“Sirât” chega aos cinemas nacionais a 31 de julho.






