Mstyslav Chernov: “o cinema transformou-se na verdadeira arma para combater a desinformação”

(Fotos: Divulgação)

Fotógrafo e fotojornalista transformado em correspondente de guerra e cineasta logo após o início do conflito entre a Rússia e a Ucrânia, em 2014,  Mstyslav Chernov ganhou o Oscar de 2024 pelo impressionante “20 Dias em Mariupol”, documentário onde reúne a história e compila imagens dos vinte dias que passou com os seus colegas do Frontline e Associated Press no cerco de Mariupol depois da invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia. Imagens essas que já lhe tinham valido, entre muitas outras distinções, o Prémio Pulitzer de Serviço Público e o Prémio Deutsche Welle de Liberdade de Expressão.

Com um novo filme lançado este ano, “2.000 metros para Andriivka, Mstyslav Chernov “arrisca-se” a ser novamente um dos grandes nomes a concorrer ao Oscar já no próximo ano, não fosse o seu novo projeto daqueles objetos que durante muitos anos vão ser olhados como fonte para contar escrever a história de uma guerra sem fim à vista.

No filme [e peça jornalística de exceção) seguimos um batalhão de tropas ucranianas a tentar conquistar um lugarejo estrategicamente crucial para o conflito, Andriivka, assistindo o espectador aos intensos combates para esse objetivo. Com diversas particularidades geográficas, a área do conflito resume-se a uma mini floresta onde, entrincheirados, os soldados russos tentam travar o avanço das tropas ucranianas, onde finalmente dão de caras com a aldeia, a qual, nos dias áureos, não ultrapassava os 80 habitantes.

Foi em Karlovy Vary, onde o filme está a ser exibido, que tivemos a oportunidade de trocar algumas palavras com Mstyslav Chernov, que nos explicou que, num mundo onde o jornalismo está cada vez mais desacreditado e onde todos questionam a verdade, o cinema transformou-se na verdadeira arma para combater a desinformação.

Esteve recentemente no Sheffield DocFest, num painel onde se falou de uma enorme vaga de cinema documental vindo da Ucrânia após a invasão russa. Esse painel, com o título bem explícito “There are too many Ukrainian films” – NO THERE ARE NOT”,  surgia como resposta a algumas críticas que apontam que existem demasiados filmes ucranianos a serem lançados atualmente nos festivais de cinema globais. O que tem a dizer sobre isso?

Existe uma razão clara para haverem tantos filmes ucranianos. Estamos no terceiro ano da invasão a larga escala e há muitos artistas que foram apanhados pela guerra e começaram a filmá-la. Este é um ano de ouro para o cinema documental ucraniano. O que vemos atualmente, vou lhe chamar de Nova Onda. São filmes que têm de ser feitos, pois estamos a filmar o momento mais importante da história do nosso país. Este é um momento em que o futuro do país está em discussão. Estamos a atravessar um momento radical da nossa sociedade, fulcral, quer artisticamente, quer pessoalmente. Seria absurdo e impossível não filmar o que está a acontecer.

A Rússia investiu muito, ao longo destes anos, em desinformação e na transformação das democracias e dos media, um pouco por todo o mundo. A única forma que temos de combater isso, o único meio que ainda luta contra isso, é o cinema. O jornalismo há muito que foi desacreditado, não apenas pelos regimes totalitários, mas também nas democracias. Nesse processo, o conceito de verdade foi também destruído. Presentemente, a única forma de chegar a uma audiência alargada e falar desta guerra é o cinema. Essa é uma das razões que me fez transitar do jornalismo de investigação e do mundo das notícias para o cinema documental. O cinema ainda mantém o poder de chegar às pessoas emocionalmente e tocá-las.

Mas voltando à questão, não existem muitos filmes sobre música?  Não existem demasiados filmes sobre crimes reais?  Fico realmente triste quando ouço dizer que existem demasiados filmes ucranianos. E que o seu valor artístico é menor pois certamente são propaganda. Não é efetivamente o caso de todos os filmes ucranianos que vemos e, eu como realizador, posso dizer claramente que o “2.000 metros para Andriivka” não é de todo propaganda. É um filme sobre soldados, sobre a sua luta e as suas famílias. É, acima de tudo, um filme humano sobre a Ucrânia e sinto que a maioria das produções que são lançadas hoje sobre o meu país são também assim. Por isso, não! Não existem demasiados filmes ucranianos.

Todos os dias somos bombardeados com imagens, seja na TV, seja nos jornais, seja nas redes sociais. E muitas dessas imagens são violentas. Acha que esse fluir contínuo e normalização da violência afetou o poder e a força da imagem? Como repórter de guerra e documentarista, como combater isso para que cada imagem conte?

Pensei muito nisso e acho que essa normalização está ligada a uma coisa muito simples: as notícias. Acho que as pessoas não se habituaram, nem normalizaram, per se, a violência e o choque. Elas apenas não veem nada de novo naquilo que chamamos de notícias. Como humanos, quando assistimos a notícias sobre guerras, combates e revoluções procuramos sempre novas informações relevantes. Se não há nada de novo, não nos focamos. O que tenho reparado é que as atuais gerações estão muito habituadas à violência. Vemos isso nos filmes de ficção, nos documentários e nas notícias. Mas creio que não é isso que as desafeta emocionalmente das imagens. A verdade é que as pessoas estão fartas de imperativos e da radicalização dos media. Elas estão fartas que alguém as tente convencer de algo. E estão cansadas de já não conseguirem distinguir a verdade da mentira. É nisso que a Rússia tem investido milhões. A Rússia tenta convencer as pessoas que já não existe verdade e que nada faz sentido. Por isso, as pessoas retiram-se emocionalmente.

Como cineasta, a nossa tarefa, e voltando à questão do chamar de volta os sentimentos ao espectador, é falar com as audiências numa linguagem própria que as traga de volta.

É um repórter de guerra e um documentarista. Tem ganho muitos prémios, mas o que verdadeiramente o move e o que é ir para a frente de batalha filmar e saber que, a qualquer momento, pode ser mais uma vítima do conflito?

Comecei a minha carreira no jornalismo na Ucrânia. E após 2014 passámos todos a jornalistas e documentaristas de guerra. Essa primeira experiência ficou marcada em mim. E desde aí que ando à procura de respostas. Respostas como o que somos como humanos, a nossa natureza e a natureza da sociedade, em diferentes países, nos conflitos. Ainda hoje sinto-me confuso com tudo isto. Para dizer a verdade, o meu desejo é não ter de fazer mais isto, mas continuarei a fazê-lo enquanto a guerra durar. Como artista e cineasta, é o que posso e devo fazer: captar este momento da história do meu país. Espero que não seja algo que faça para sempre.

Como ucraniano, como vê a nova postura dos EUA perante o conflito, não apenas no corte de algum apoio ao esforço de guerra ucraniano, mas também ao cortar financiamento público, como a PBS, que tem sido parceira nos seus filmes?

Não me cabe a mim julgar as políticas dos EUA. São um país e tomam as decisões que entendem. Continuo a conversar com os protagonistas do meu filme, os soldados, e falo também com muitos civis. O que aprendi ao longo destes 12 anos, visitando várias zonas de conflito, especialmente na Ucrânia, é que a única coisa com que podes contar para sobreviver numa guerra é com aqueles que tens ao teu lado, seja um irmão, um familiar ou um membro da tua comunidade.

A Ucrânia foi invadida em 2014 e não teve apoio do Ocidente durante muitos anos. Não apenas sobreviveu como construiu uma identidade nacional. As coisas vão piorar antes de melhorar, mas nos sítios que visito, como vemos no meu filme, o mais pessimista e com uma visão mais negra em relação ao futuro sou eu. É por isso que no “2.000 metros para Andriivka o Fedya é o protagonista. É ele que mantém a esperança viva. É ele que acredita que a Ucrânia vai prevalecer como nação e que as bandeiras e os símbolos representam a esperança. Nos piores momentos da nossa história, são essas as pessoas que procuro, aqueles que mantêm a esperança viva. Sei que a minha cidade, a 40 km da Rússia, é bombardeada diariamente. Se ela se manter livre será à conta destes homens e não dos EUA ou da Europa. E mesmo sendo importante o apoio desses dois parceiros, é naqueles homens que estão no terreno que tenho de confiar.

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