Camille Cottin: “Não é muito comum termos personagens femininas no cinema que não desejam ter filhos”

Les Enfants vont bien, de Nathan Ambrosioni, será exibido em Portugal na 27.ª Festa do Cinema Francês

Dois anos depois de Toni en famille, Camille Cottin voltou a colaborar com o realizador Nathan Ambrosioni, novamente numa nova história onde a maternidade está destaque. No filme de 2023, ela desempenha o papel de uma mãe super ocupada com cinco filhos e que tem a ambição tardia de voltar a estudar. Agora, a conhecida atriz de filmes como A Casa Gucci, Stillwater e Trois Amies (ainda inédito em Portugal), além da série Call My Agent!, vai ser surpreendida pela irmã, quando esta desaparece e deixa a seu cargo os dois sobrinhos pequenos. “Gostei tanto de trabalhar com o Nathan no Toni en famille que fiquei obcecada em trabalhar com ele novamente e fazer parte da sua história no cinema”, disse Cottin ao C7nema em Karlovy Vary em 2025, onde Les Enfants vont bien teve a sua estreia mundial, inserida na competição ao Globo de Cristal. “É um presente ter este tipo de relação com um realizador que escreve os filmes a pensar em mim. É algo muito precioso. Quando temos alguém tão maduro aos 25 anos, é difícil não pensar no que fará aos 40.”

No filme, Cottin desempenha o papel de Jeanne, uma mulher que terminou uma relação de largos anos por causa do desejo da parceira em ter filhos, enquanto ela não queria. Quis o destino que a irmã, Suzanne, desempregada e um pouco perdida no papel de mãe, deixasse os miúdos ao cuidado da tia, que é agora forçada a recebê-los e lidar, juntamente com as crianças, com o desaparecimento da irmã. “Ainda não é muito comum termos personagens femininas no cinema que não desejam ter filhos”, explica Cottin. “Especialmente alguém que, não querendo ter filhos, acaba por ser forçada a lidar com duas crianças. De certa maneira, essa pessoa sente tudo como uma armadilha. O que é mais interessante no olhar do Nathan é que ele não julga as ações da Suzanne. Muitos diriam que ela fez a coisa mais horrível do mundo. Será possível realmente uma mãe pensar que o melhor que tem a fazer é deixar os filhos ao cargo de outra pessoa? Podemos ver isso como um ato de amor? É difícil olhar para o abandono com essa visão.”

Admitindo que maternidade e paternidade são elementos demasiado complexos, mas que normalmente são vistos como orgânicos e intrínsecos ao ser humano, Cottin sente que “devoção e amor incondicional fazem parte dessa ideia” generalizada, mas sente que nem todas as pessoas estão preparadas ou sentem isso em relação aos filhos: “É bom termos uma perspetiva diferente desta questão. O Nathan é um pouco obcecado com a questão da maternidade. Mostrou isso no Toni en famille e agora no Les Enfants vont bien, onde novamente a devoção aos filhos e liberdade estão em cima da mesa (…) Todos temos a nossa personalidade e muitas vezes ela não se adapta ao papel que tens de assumir. Claro que tens de te adaptar a uma nova vida quando és mãe. Tens de prevenir problemas, manter um rigor. Quando isso falha, há problemas. E as crianças não dizem tudo diretamente, há uma espécie de codificação. Tenho lutado para assumir o meu papel de mãe e tenho me adaptado. Por exemplo, este ano só aceitei fazer filmes em Paris, onde moro. Gosto de manter as duas vidas, a de atriz e a de mãe. Isso preenche-me. Costumo brincar com o meu namorado, que é o pai dos meus filhos, e dizer que a maior catástrofe que me podia acontecer era a a babysitter dos miúdos abandonar-me (risos). É apenas uma piada, uma brincadeira que temos entre nós (risos). Ele é um ótimo pai e companheiro”.

Confessando que tem dificuldades em interpretar papéis de pessoas que despreza, Camille Cottin dá um exemplo curioso da sua filmografia, no qual interpreta a beata, caçadora de escravos, Madame La Victoire: “No Ni chaînes ni maîtres (Sem Amarras) odiei tanto a minha personagem que foi complicado filmar. Tenho este problema desde pequena: dificuldade em interpretar alguém que odeio. Sei que é estupido isso, pois sou atriz, mas isto acontece porque tenho uma abordagem muito física às personagens. É como se vestisse um fato. E esse fato, essa personagem, era muito cruel e má. Por isso, sentia-me sempre um pouco enojada cada vez que ia para uma cena. Aceitei fazer esse filme porque era muito importante contar aquela história, mostrar a sua dimensão política, e satisfazer o desejo do realizador em relatar este episódio. 

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