Num Festival de Berlim em que Gabriel Mascaro apresentou um mundo onde os idosos (após os 75 anos) são forçados passar o final dos seus dias numa colónia providenciada pelo governo, o dinamarquês Frelle Petersen respondeu com um objeto mais focado no estado atual das coisas no seu país no que diz respeito ao apoio social a idosos que decidiram permanecer nas suas casas, mesmo já não sendo totalmente independentes para desempenhar certas tarefas.
“Home Sweet Home” conta a história de Sofie (Jette Søndergaard), uma mãe solteira, que começa um novo emprego como cuidadora domiciliar e que precisa equilibrar o trabalho exigente com os cidadãos das comunidades locais e a vida quotidiana com a filha, Clara. “Fui inspirado pelo trabalho de cuidador e trabalhei nisso para preparar o filme”, explicou-nos Frelle Petersen em Berlim, onde o seu filme foi exibido na mostra Panorama. “Trabalhava 6 horas por dia e conheci muitos cuidadores que são realmente super-heróis sem uma capa. Pessoas com o sentido de ajudar cidadãos idosos com grandes dependências e necessidades. É um trabalho muito duro. Tens uma lista cronometrada de coisas que tens de fazer, coisas que requerem especial cuidado, como a higiene. O que essa lista não tem é, por exemplo um tempo específico para conviver e falar com eles. Estas pessoas fazem o que está na lista, mas naturalmente também falam com as pessoas que estão a tratar. Era como ver membros da família a visitarem os parentes mas com o tempo contado. Comecei a escrever sobre esta mulher que está a iniciar um novo capítulo da sua vida com o ensejo de fazer a diferença. Ela quer ajudar as pessoas, mas acaba por ser vítima do sistema. Estas pessoas podem facilmente ter a um burnout dada a pressão que vivem diariamente e, naturalmente, sentir uma fadiga da compaixão”.

Reencontrando a atriz Jette Søndergaard, com quem trabalhou em “Uncle” e “Forever”, Frelle recorda que as pessoas que retratou são pessoas que têm a capacidade de se mudarem para um lar ou casa de repouso, mas preferem se manter na casa que sempre viveram: “O que aprendi nos meses que trabalhei nesse sistema é que quando entras na casa dessas pessoas tens de os respeitar muito, pois para muitos são os únicos momentos de contacto social. Na verdade, podemos não conhecer as pessoas e tens a mesma de assistir a momentos que normalmente são de grande intimidade, como o levantar da cama, dar-lhes banho e fazer a higiene pessoal. O título do filme vem daqueles tapetes que dizem lar doce lar. Há uma ironia nele, de certa forma, pois estamos a falar de pessoas com vidas que já não passam muito fora de casa”.
Vencedor de vários prémios internacionais, incluindo o Festival de Tóquio por “Uncle”, Frelle prepara já o novo filme. Questionado sobre o que o move no cinema, o dinamarquês não tem dúvidas que tem de ser algo que mexa com ele num nível pessoal. “Ontem, na estreia mundial do filme, vi uma sala a participar muito ativamente depois da exibição na sessão de perguntas e respostas. Isso demonstra que o filme tem uma forma universal e que as pessoas se conectaram a ele”.
O Festival de Berlim termina a 23 de fevereiro.

