“Sei como é a dor da tortura”, diz Mosen Makhmalbaf

(Fotos: Divulgação)

Na sua terceira visita ao Brasil, o iraniano Mohsen Makhmalbaf fala sobre o presidente Lula com carinho, ainda que tenha repreendido um gesto dele do passado: “Daquela vez em que ele cumprimentou Ahmadinejad, ele apertou mãos sujas de sangue”, disse o realizador e escritor no Espaço Augusta, em terras paulistas, com ênfase na admiração que tem pelo estadista brasileiro de origem operária.

Ao lado do prestígio de nomeações à Palma de Ouro e ao Leão dourado de Veneza e do sucesso mundial de títulos como “Kandahar” (Prémio do Júri Ecuménico da Croisette), Makhmalbaf guarda como emblema de luta estética uma série de cicatrizes no corpo, resultantes dos quatro anos e meio que passou preso, por militância política. A pobreza da sua infância também faz parte do rosário de memórias duras que instigam o olhar empático com que faz filmes e com que – até quarta-feira – julga as longas-metragens da Mostra de São Paulo.

No evento – que lhe deu a láurea honorária Leon Cakoff, em 2011 – há duas produções do cineasta e escritor de 67 anos fora de competição: “Here Children Do Not Play Together” e “Talking With Rivers”. Quando estes dois filmes foram exibidos no festival, as deliberações do júri d, que ele integra, já estarão concluídas.
Este festival é uma espécie de universidade para o público, que é muito especial, pois ama e entende cinema como poucas plateias amam”.

Fazem parte do júri da 48ª Mostra, ao lado de Mohsen, a atriz brasileira Camila Pitanga, o ator e cineasta português Gonçalo Waddington, a curadora e produtora Hebe Tabachnik, o produtor Kyle Stroud e o crítico de cinema francês Thierry Meranger. “Se fazes cinema em busca de fama, ele pode se transformar num negócio. Eu faço cinema para mudar a realidade”, diz o artista por trás de filmes como “O Presidente” (2014) e “Gabbeh” (1996) e “Dastforoush” (1987).

Em sua incursão pelo mercado editorial, publicou cerca de 30 livros, muitos dos quais traduzidos e publicados em diversos idiomas. O último que lançou é uma antologia das suas memórias. Na conversa a seguir, Makhmalbaf explica as inquietações em relação à sua pátria.

Solidariedade parece ser a palavra central da sua filmografia. Que essência solidária a sua dramaturgia segue?

Como cresci em um contexto em que um pão era de um valor extremo, tenho simpatia pelos pobres. A experiência da pobreza trouxe-me responsabilidade sobre as outras pessoas. A vivência que tive no Afeganistão ampliou isso. Eu sei como é a dor da tortura. Tento fazer filmes que transformem o mundo, mas sem matar as plateias, sem oprimir a audiências.

Viu o “The Seed of The Sacred Fig”, que foi premiado em Cannes e pode ser nomeado ao Oscar, apesar da perseguição do Irão ao realizador Mohammad Rasoulof?

Gosto de Rasoulof e sinto que esse filme tem mais significado para quem está fora do Irão, por ser uma súmula do que já conhecemos bem lá. Sabias que o governo do Irão queria mantê-lo preso por oito anos? O filme dele está na linha do cinema independente que o meu país faz. Lá, há três correntes: a. A linha comercial, que tenta ser cópia de Hollywood e de Bollywood; b. Os filmes de propaganda; c. A vertente artística. Nessa vertente, temos uma linhagem formalista e uma linhagem de camadas sociais e políticas. Atuo nas duas frentes.

O senhor ainda ama o Irão? Tem orgulho do seu país?

O povo iraniano mudou muito com a experiência do totalitarismo. Gosto de muita coisa na nossa cultura e na nossa natureza, mas não gosto do regime atual e considero Ahmadinejad um charlatão que chegou aonde está através de um golpe de estado.

Que tipo de cinema mais lhe impressiona?

Posso lhe dar um exemplo que está na Mostra, em retrospectiva de clássicos: o indiano Satyajit Ray. A sua “Trilogia de Apu” é cheia de camadas, serve como um espelho da Índia para o mundo.

Do que tem medo?

De não conseguir mais ser útil às pessoas.

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