Presente na cobertura jornalística de grandes festivais internacionais como Locarno e San Sebastián, onde sempre procura reflexões plurais para o seu site, o DMovies, Victor Fraga é um brasileiro radicado em Londres que mantém uma trajetória artística paralela ao mundo da reportagem, com experiências na realização imbuídas do mesmo instinto investigativo que dá norte à sua relação com a notícia – mas com notável viés poético. A sua inquietação estética faz-se notar na curta-metragem “O Teste da Farinha” (2002) e na longa documental “A Fantástica Fábrica de Golpes” (2021). A vivência de anos em Inglaterra (iniciada em 1997) levou-o a ligar a câmara na direção de duas figuras aclamadas no Reino Unido (e fora dele) – o realizador Ken Loach, vencedor de duas Palmas de Ouro, e o ex-líder trabalhista Jeremy Corbyn – na construção de uma expedição cinematográfica (abrasiva) ao cerne da manipulação mediática no Velho Mundo: “Os Maus Patriotas”. As duas personagens neste filme tiveram as suas lutas alvejadas pelos media britânicos mais “tradicionais”, nos quais foram rotulados de cobardes, simpatizantes de terroristas e comunistas, tratados como ameaças à segurança nacional inglesa.
Com projeção na Mostra de São Paulo, o documentário de Fraga parte de entrevistas recentes com Loach e Corbyn – costuradas com imagens de arquivo e trechos de filmes do artesão autoral por trás de “I, Daniel Blake” – para refletir sobre os preconceitos, a difamação e a censura. Cada depoimento dado a “Os Maus Patriotas” ganha uma cadência sufocante na montagem nada ortodoxa de Valnei Nunes. A produção conta com uma engenhosa direção de fotografia de Giulio Amendolagine.
Na conversa a seguir, Fraga explica ao C7nema que mosaico audiovisual procurou construir e fala da sua parceria com Bruce LaBruce em “The Visitor”, lançado na Berlinale.

Onde entra Marx em Ken Loach, Jeremy Corbyn e no seu filme?
O Marxismo me persegue. Acreditas que em Londres moro na mesma rua, a menos de 50 metros de onde Karl Marx escreveu “O Capital”? No entanto, eu não sigo o marxismo. O meu trabalho tem um viés progressivo nas pautas sociais, e – acima de tudo – é antiautoristarista. O objetivo da trilogia da “Média Suja” (do qual “Os Maus Patriotas” é o segundo filme) é promover a transparência, a justiça e o equilíbrio nos meios de comunicação. Às vezes, essas características coincidem com o marxismo, mas nem sempre. Alguns regimes marxistas escorregaram no autoritarismo, e não compactuo com eles. Creio que o Ken e o Jeremy têm uma visão similar. Ao passo que ambos expressam simpatia à Revolução Russa, criticam o capitalismo, a gig economy (“a economia de trabalho temporário”), e os tendenciosos meios de comunicação do Ocidente, tanto o Ken quanto o Jeremy se distanciam de tiranos com o Estaline, em meu próprio filme, e de Putin, que aliás nem marxista é.
O dispositivo de escuta do filme é rico e gregário, mas o quanto dele é filtrado a) pela tua brasilidade; b) pela tua cinefilia (no caso de Loach); c) pela tua experiência de ser um brasileiro no exterior?
Morar na Europa há 27 anos, desde o final de minha adolescência, faz de mim mais brasileiro do que nunca. O Brasil nunca saiu de dentro de mim, e nunca vai sair. E isso sempre estará refletido no meu trabalho. O meu trabalho é abertamente político. Daí as comparações entre políticos brasileiros e britânicos. Ser brasileiro não me impede de ser britânico. No Brasil, me sinto britânico. Em Londres, me sinto brasileiro. Adoro essa inversão. Adoro ser o forasteiro aonde quer que eu vá. Acredito que o meu olhar “de fora” enriqueça o meu trabalho. Eu me interesso em visões subversivas. Como cineasta, produtor, roteirista e crítico de cinema, claro que a cinefilia me é inerente. Sempre fui fã do Ken Loach. Já o havia entrevistado três vezes antes. A sua linguagem é singular e a sua contribuição à história do cinema é indelével. O Reino Unido é um país extremamente conservador, inclusive os recentes líderes trabalhistas que chegaram ao governo (Tony Blair, Gordon Brown e Keir Starmer). Ken, além de cineasta, é ativista. Os seus filmes ajudaram a mudar a história do país. Por exemplo, a organização Shelter, que cuida de moradores de rua, foi criada após o sucesso de “Cathy Come Home”.O atual primeiro-ministro trabalhista disse que o seu partido, o Labour, deveria ser um partido de trabalhadores, mas não de protestos. Naturalmente não existe trabalhismo sem militância. O Keir Starmer é uma aberração. Não é por acaso que expulsou tanto o Ken Loach quanto o Jeremy Corbyn do partido. Eu me identifico com o Ken Loach tanto a nível artístico quanto a nível político. Sou cinéfilo, e o cinema ativista tem um lugar especial em meu coração.
A realização de “Os Maus Patriotas” coincide com a sua experiência com Bruce LaBruce em “The Visitor”. O que extraiu de saldo criativo dessa parceria?
Fui produtor e co-roteirista de “The Visitor”, que foi realizado pelo Bruce LaBruce, e vai estrear no Brasil em novembro no Mix Brasil. É uma releitura pornográfica de “Teorema”, do Pasolini, em Londres. “Os Maus Patriotas” tem algumas coisas a ver com “The Visitor”. Em ambos, distorço a retórica xenófoba de forma irónica. Por exemplo, ambos os filmes têm falas racistas de Winston Churchill, deturpadas por mim, assim como trechos do histórico e infame discurso proto-xenófobo “Rivers of Blood”, do falecido parlamentar Enoch Powell. Trabalhar com o Bruce foi super legal. Ele sabe escutar e nos permitiu incorporar elementos britânicos e brasileiros ao roteiro (o Bruce é canadiano). Ele é um artista transgressor e inovador que admiro desde a minha adolescência. Também devo muito a meu amigo e parceiro artístico Alex Babboni, que também é brasileiro. Este filme não teria acontecido sem ele. Antes de “The Visitor”, eu vinha a trabalhar com o cinema político há alguns anos. A política é imunda e indecente. A pornografia ofereceu-me a oportunidade de fazer algo mais digno.

