Nas vezes em que esteve no Brasil, para a encenação local das suas peças teatrais ou para ações do Festival Varilux, Agnès Jaoui adquiriu intimidade com o português e se apaixonou pela Música Popular Brasileira, com especial predileção pelo cancioneiro de Chico Buarque. Em 2002, ela passou pelo Rio de Janeiro para promover “Le Goût Des Autres” (2000), que valeu à França uma nomeação nos Oscars. Misturou o que aprendeu em solo carioca com o seu conhecimento prévio do repertório canoro da sua pátria. Só não teve como levar o que trouxe da América do Sul para o set de “Ma Vie Ma Gueule”, que entrou na 48ª Mostra de São Paulo com o título “Esta Minha Vida”. É um filme sem improvisações, fiel ao argumento escrito pela realizadora, Sophie Fillières (1964-2023), que faleceu sem ver a longa-metragem ser concluída. A finalização deste drama sobre a luta de uma mulher contra os abalos da psique foi feita por colaboradores da cineasta.
“A Sophie apostava muito nos planos-sequência, pois gostava de uma linguagem fílmica longa em que o elenco pudesse extrair o máximo de cada cena”, explicou Agnès ao C7 num encontro na tenda da Quinzena de Cineastas, em Cannes, onde a produção conquistou o Prix SACD.
Hoje com 60 anos, a atriz, uma francesa nascida em Antony, está a preparar uma comédia de tons dramáticos para realizar, numa aposta em múltiplas personagens. Atuar em projetos de outrem é um prazer que ela não rejeita em meio à confeção de sua própria filmografia. Sob a direção de Sophie, de quem fala com carinho, La Jaoui vive Barberie Bichette, conhecida por todos como Barbie. O seu dia a dia sempre foi vitorioso. Bonita e inteligente, ela é uma boa mãe, uma amiga dedicada e uma grande amante. Ao chegar aos 55 anos, ela sente o peso da idade, num reflexo do etarismo do povo francês. Tudo o que anteriormente parecia equilibrado desfaz-se, deixando as coisas mais obscuras, violentas e até mesmo absurdas.
Na entrevista a seguir, ela fala ao C7nema sobre a estética de Sophie.

Qual é o olhar de “Ma Vie Ma Gueule” (“Esta Minha Vida”) sobre a realidade das mulheres na França de hoje?
O isolamento é o dilema desta história. O ponto aqui é a dificuldade que Barbie tem de se conectar com a vida. Ela passa por problemas psicológicos e anda em desconexão com o mundo.
Como era o processo de construção de Sophie Fillières no set?
O plano longo, sem cortes, era a sua aposta. O meu papel neste filme é o mais livre possível, mas essa liberdade nasceu de um processo de construção meticuloso. Ela levava em conta a minha relação pregressa com o cinema, que passa por exprimir opiniões de personagens com os mais variados perfis.
“Le Goût Des Autres” foi uma espécie de ponte entre a tradição palavrosa do cinema francês do passado e uma abordagem mais pop, que surge ali nos anos 1990. Que obra construiu a partir dele, como realizadora?
Existiam subsídios do governo para estimular a criação mesmo numa fase difícil de deserção do público. Os órfãos da Nouvelle Vague não queriam mais saber o que o cinema francês fazia. Apesar disso, eu tinha histórias para contar e resolvi seguir em frente. Estou a preparar-me para fazer um novo filme. Escrevi um roteiro para vários personagens – como sempre. É como eu gosto de me expressar.

