Numa das primeiras vezes em que esteve no Brasil, como convidado da Mostra de São Paulo, em 2004, Amos Gitai esbarrou com Manoel de Oliveira (1908-2015) assim que chegou à terras paulistas, cruzando-se consequentemente com o iraniano Abbas Kiarostami (1940-2016). Falaram de filmes e trocaram impressões sobre os seus países, nas incongruências distantes que a pátria de cada um possui. O natural de Israel voltou a visitar os brasileiros outras vezes, numa passagem pelo Festival do Rio de 2010 e numa volta a SP, em 2019, onde buscou a láurea honorária chamada Prémio Leon Cakoff. O carinho pela Mostra fez com que enviasse para lá as dois filmes que finalizou este ano, numa amplificação do seu status de polémico.
“Continuo a fazer filmes porque o cinema cria contradições”, disse Gitaï, ao C7nema na Alemanha. Nada que o realizador de “Kedma” (2002) e “Kadosh” (1999) fez da década de 1970 até hoje passa sem controvérsias, sobretudo em função das suas posições sobre o conflito envolvendo a sua pátria, Israel, com os povos vizinhos. O seu espírito polémico acirrou diante dos últimos meses de intensa tensão entre os dois governos. Só pelo título, “Why War”, existe a promessa de ir um pouco mais fundo nas feridas da intolerância decorrentes de uma disputa territorial histórica. Duas estrelas francesas, Irène Jacob e Mathieu Amalric, integram o elenco. Irène trabalha em “Shikun” também e acabou por se tornar o chamariz da produção na sua excursão pelo mundo. “O fundamentalismo é sempre danoso a qualquer cultura do planeta. Igualmente danosas são as coberturas mediáticas sensacionalistas. Os media transformaram-se numa máquina de guerra. O dilema dos filmes que tento fazer é gerar dialéticas, com a percepção de que uma região como Israel atrai atenções da imprensa estrangeira de maneira exacerbada, num excesso de opiniões que acabam por esterilizar problemas que nos dividem, de modo a acirrar sensos que nem sempre comportam uma análise crítica dos factos”, disse Gitaï ao C7, antes de estrear “Shikun“. “O meu cinema não levanta bandeiras, ele gera debates”.

A conversa com este site foi interrompida, não por coincidência, pela chegada de Alberto Barbera, o diretor artístico de Veneza, numa deixa para que os dois travassem uma conversa sobre uma possível atração que o cineasta teria para apresentar na terra das gôndolas. “Why War” estava na montagem à época, mas Barbera foi apanhado pela inegável elegância de “Shikun”, um diálogo cinematográfico com a peça teatral “O Rinoceronte” (1959), de Eugène Ionesco (1909-1994). A trama companha situações absurdas de 20 personagens num prédio em Israel. Irène interpreta a figura mais colérica do tal prédio. “O Teatro do Absurdo ao qual Ionesco foi associado ganhou as ruas… e as manchetes. Eu terminei ‘Shikun’ antes das tensões recentes entre Israel e a Palestina alcançarem o lugar de emergência em que chegaram e entreguei o filme a Berlim com a esperança de despertar novas interpretações sobre o que passamos”.
Produção de 1h30, “Why War” é inspirada na correspondência entre Albert Einstein (1879-1955) e Sigmund Freud (1856-1939) sobre como a humanidade poderia evitar a guerra. Baseia-se também numa obra de Virginia Woolf (1882-1941), “Three Guineas”, em que a escritora investiga as relações de dominação na sexualidade. Tal investigação gerou um ensaio de Susan Sontag (1933-2004), chamado “Regarding the Pain of Others”, sobre a iconografia da guerra. O que Gitaï faz é amarrar todas essas referências teóricas, nem sempre numa costura firme. As farpas do seu pespontado saltam aos olhos nos ecrãs e incomodam.
“A maneira com que James Joyce descreve Dublin nos seus livros parece um puzzle, capaz de romper com as convenções descritivas que existiam na literatura antes dele. É uma prova de que a Modernidade é sempre ruptura. Picasso colaborou com isso quebrando a anatomia para além do que as impressões impõem. O cinema veio na sequência, com Chantal Akerman, com Rossellini, com Godard, com Abbas Kiarostami, para desafiar as justaposições. Esses gestos da arte desafiam a ditadura capitalista da fórmula formatada”, disse o realizador, hoje com 74 anos. “A desobediência de Ionesco ajuda-me a falar de pessoas descolocadas na realidade, em especial num momento em que Israel se vê cercado de absurdos”.
A Mostra de São Paulo segue até o dia 30 de outubro.

Exibições na Mostra – Shikun
25/10 – 20:00 – RESERVA CULTURAL – SALA 2
27/10 – 13:00 – CINESYSTEM FREI CANECA 3
29/10 – 17:45 – CINEMATECA SALA GRANDE OTELO
30/10 – 18:40 – CINESYSTEM FREI CANECA 5

Exibições na Mostra – Why War

