Georges Gachot nos acordes de “Misty”

(Fotos: Divulgação)

Gravada originalmente em 1954, “Misty” virou a banda sonora de muitos amores e inspirou até filmes de culto, o que deu ao seu idealizador, o pianista Erroll Garner (1921-1977), lugar entre os autores dos grandes standards do jazz nos EUA. Há, entretanto, um lado doloroso na sua trajetória pessoal e profissional do qual pouco se sabe e que levou o documentarista franco-suíço Geoges Gachot a retratar a sua vida num exercício biográfico regado de poesia. Entusiasta da música popular brasileira, como se nota em filmes como “Onde Está Você, João Gilberto“, de 2018, e “Maria Bethania: Música É Perfume“, de 2005), o realizador lança no Festival do Rio “Misty – A História de Erroll Garner“. A narrativa revê situações conturbadas do compositor com o empresário, com amores e com a própria filha. O recorte histórico revive o intenso período pós-guerra dos Estados Unidos, entre o boom do consumo e a Guerra do Vietname.

Numa conversa com o C7nema no Armazém da Utopia, sede do Festival do Rio, Gachot mapeia o eixo estético da música na sua produção.

Os seus documentários destacam-se pela maneira como você trabalha as imagens de arquivo, na sua montagem, a partir de um tratamento plástico requintado. O que guiou a abordagem dos arquivos em “Misty“?

Todas as imagens de arquivo que uso têm um “cadre”, uma “moldura”, que lhes dê uma ideia de volta no tempo. Isso não quer dizer usar o esquema convencional de colorir o presente e usar P&B no passado. O “Misty“, inclusive, vai na margem oposta disso e dá cor ao passado. O assunto que me guia, no fundo do que está por trás de cada música, é o drama do Erroll. No caso de algumas imagens da TV belga, não tive a autorização de usar cor.

O que a estrutura musical documental lhe abre de espaço dramatúrgico na criação do seu cinema?

É necessário sempre um equilíbrio entre música e vida privada do artista sobre o qual me debruço. Erroll já havia atraído a atenção do Clint Eastwood no seu primeiro filme como realizador (“Play Misty For Me“). Pude descobrir muitas coisas sobre Garner nesse processo, entre elas a sua tristeza. Sinto que saber a historia por trás de cada música ajuda e, neste caso, “Misty” não é uma canção de felicidade.

O que existe em comum entre as estrelas da música que você filma?

Quase todos são do signo de Gémeos, nascidos em junho. Acho que deveria fazer um filme sobre essa ascendência.

De que maneira a música portuguesa entra no seu radar?

Gosto muito de fado e tenho interesse em falar da pianista clássica Maria João Pires.

Algum novo projeto sobre a música popular brasileira à vista?

Tenho conversado com (o cantor e compositor) Djavan, que tem uma vida mais reservada. Tudo depende dele gostar de mim, como se deu com o Martinho da Vila e a Maria Bethania. O cinema que faço depende disso, desse encontro.

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