Anne-Sophie Bailly olha para a paisagem do Cais do Porto, ao redor do Armazém da Utopia, a sede do Festival do Rio, com a curiosidade de quem observa gestos à procura de conhecer as dramaturgias do dia a dia. “O amor nunca é totalmente perfeito nos seus encaixes, sempre aberto a conflitos“, diz Anne-Sophie ao C7nema, antes da projeção de “Mon Inserapable” (no Brasil “Pedaço de Mim“) no Festival do Rio, em sessão no Estação NET Botafogo.
No fim de agosto, este drama sobre relações maternas passou pela Orizzonti do Festival de Veneza. Laure Calamy é a protagonista. Ela vive Mona, que mora num pequeno apartamento com o seu filho adulto Joël, uma pessoa com deficiência. O miúdo está perdidamente apaixonado por uma colega de trabalho, Océane, mas Mona desconhece o relacionamento dos dois. Quando Océane engravida, escolhas devem ser feitas e o vínculo de mãe e filho é enfraquecido.
Tem sessão da fita nesta quinta, no Estação NET Botafogo 1, e no sábado, dia 12, no Estação Net Gávea. Na entrevista a seguir, Anne-Sophie fala ao C7 sobre seu processo criativo com Laure.

De que maneira a luta de Mona para cria Joël e a sua batalha para lidar com as dificuldades do dia a dia de jovens com deficiência refletem as questões sociais políticas das lutas femininas da França de hoje?
A raiz latina da palavra Mona já pressupõe solidão. Ela é uma mulher que tomou as rédeas de todos os aspectos de sua vida para si e teve que se colocar no comando de muitos processos, o que a isolou. Esse universo da atividade de cuidadora pelo qual ela circunda acaba por ser muito solitário, pois demanda muito e dá pouco retorno perto do investimento afetivo que se faz. O que vejo de “francês” na figura dela é o seu modo franco, por vezes teimoso, cheio de energia e cheio de engajamento político. Em França somos assim.
O que uma atriz do quilate de Laure Calamy trouxe para o seu filme?
A cooperação com ela é muito direta e muito aberta. Era importante deixá-la livre para criar e para mergulhar nas suas descobertas. Pedi muito e ela me deu muito mais do que eu pedii.
Como se estruturou o trabalho com o diretor de fotografia Nader Chalhoub na construção da luz na fotografia?
Trabalhámos juntos no passado e ele conhece a minha obsessão pelas pessoas, por corpos. Amo o cinema, com toda a sua potência visual, só que o meu maior foco de interesse são as pessoas, com os seus gestos e peles. Tentamos criar uma luz que iluminasse as questões com suavidade, procurando diferentes texturas de cor. O ambiente dos hospitais, um dos eixos da trama, nem sempre é fácil de se fotografar sem deixar uma impressão plana.
Participa do Festival ainda com outro filme, “Le Procès Du Chien”” (O Julgamento do Cachorro” no Brasil), de Laetitia Dosch, do qual foi argumentista. Como foi a concepção daquela dramaturgia?
O aspeto mais interessante desse projeto foi a chance de investigar os processos judiciais e imprimir humor numa dinâmica de manipulação.

