“Foi surreal. As pessoas perguntam-me como me senti, mas a única coisa que consigo dizer é que foi um sonho. Ainda estou abananado”. Foi assim que Ryan J. Sloan, realizador de “Gazer”, reagiu à nossa questão quanto à estreia da sua primeira longa-metragem na Quinzena dos Cineastas no Festival de Cannes.
Foi uma conversa na praia da Quinzena, pouco mais de 14 horas depois do seu filme ser exibido no Theatre Croisette na noite anterior. Sala cheia, muita emoção e elenco e equipa técnica no palco. Com um chapéu na cabeça e palavras que saiam com grande comoção, Ryan explicou à audiência o quão difícil foi fazer este filme, o qual confessa, levou-lhe o dinheiro todo que tinha juntado. “Para teres noção, a luz da minha casa foi cortada por falta de pagamento e esta camisola que tenho vestida foi a primeira peça de roupa que comprei em muito tempo (risos). Quando disse ao meu pai que o filme tinha sido selecionado para o festival, ele perguntou-me: ‘Eles pagam o alojamento?’ Eu respondi que não, mas que era uma honra estar aqui. Ele disse-me para ter cuidado pois parecia um daqueles esquemas fraudulentos. (risos) Mas é um sonho. Era aqui, desde o início do projeto, que ambicionamos chegar. Para um realizador, esta é a secção e festival mais ‘cool’ para estrear um filme”.
Eletricista de profissão, Ryan começou a trabalhar com o pai aos 13 anos, nas férias e fins de semana, pois ainda estava a estudar. Foi do lado da mãe que lhe chegou o gosto pelo cinema. “Ela é uma cinéfila e não sabe”, diz Ryan com um sorriso nos lábios, explicando que as escolhas cinematográficas da mãe estavam ligadas a paixonetas: “Ela seguia o Robert De Niro, o Al Pacino, o Richard Gere. Com isso, fui vendo uma série de bons filmes como o “The Godfather”, “Dog Day Afternoon”, “Taxi Driver” e “American Gigolo”. Eu via os filmes com ela e dizia muitas das falas. Ela perguntava se eu queria ser ator, mas eu sempre disse que pretendia entender porque os atores diziam o que diziam, ou seja, o que estava por trás disso. Queria ser realizador.”

Natural de Nova Jérsia, onde o seu “Gazer” se desenrola, Ryan escolheu o thriller como batismo nas longas-metragens, sob um formato filmado a 16mm. Thriller de paranoia, o filme conta com Ariella Mastroianni como Frankie, uma jovem mãe com uma rara doença cerebral degenerativa, com a qual luta para perceber o tempo. Ela usa cassetes para a ajudar na orientação, mas não consegue encontrar um trabalho estável devido à sua condição. Quando uma mulher misteriosa, que conhece num grupo de apoio, lhe oferece um trabalho arriscado, ela aceita, sem saber das consequências que daí advém.
Prestando homenagem aos grandes mestres de Nova Hollywood, “Gazer” foi bem recebido em Cannes, especialmente pela forma artesanal como foi construído, dando destaque à própria cidade de Nova Jérsia, que funciona como personagem. “Toda a gente que conheço de Nova Jérsia diz que quer sair dali, mas não o fazem. Temos uma relação de amor-ódio com a cidade. É pouco saudável isso, mas na América é muito comum, ao contrário da Europa, morreres onde nasceste. É uma doença americana, uma espécie de tortura techekoviana. Há qualquer coisa de tragicamente romântico em estar num local em que não gostamos das pessoas, mas não vamos embora.”
A Música
Um dos elementos chave de “Gazer” é a banda-sonora assinada por Steve Matthew Carter. Ryan J. Sloan explicou-nos a importância dela e ajudou toda a equipa a entrar na mesma toada e atmosfera que o filme evoca: “O interessante na música é que à medida que eu e a Ariella estávamos a trabalhar na ideia do filme eu ia falando com o Steve – que cresceu comigo em Nova Jersey, mas vive agora em Nashville. Não tinha dinheiro para lhe pagar, mas acordamos uma parceria. À medida que a ideia ia avançando, ele ia compondo. Quando chegamos à produção ele já tinha 10 faixas construídas que imediatamente trouxemos para as filmagens. ‘Este é o mundo em que vão viver’, afirmei. Queria um mundo em que a Frankie e o espectador não pudesse fugir. Mal ouvi a banda-sonora disse. Este é o filme que quero”.
O Futuro
“Sei que vou filmar novamente. Não sei quem o paga, mas vou filmar. Espero não ter de ser eu a pagar (risos). Já estou a trabalhar num segundo filme de uma trilogia que posso definir como o ‘Paul Schrader meets O Feiticeiro de Oz’. Tem elementos noir, mas será bem diferente deste “Gazer”. É no mesmo universo, mas não uma sequela estilo “Gazer 2” e “Gazer 3””.

