“Onde Fica Essa Rua? Ou Sem Antes Nem Depois”: Retratos fantasmas

"Onde Fica Essa Rua? Ou Sem Antes Nem Depois" estreou nos cinemas a 30 de novembro

(Fotos: Divulgação)

Regado pela nostalgia de Paulo Rocha (1935-2012) e o seu “Os Verdes Anos” (1963), “Onde fica Esta Rua? ou Sem Antes nem Depois” leva ao circuito português um processo geográfico, cheio de afeto, de cartografar os espaços e os tempos neles registados. O espaço em questão na longa-metragem feita a quatro mãos por João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata é uma Lisboa que se equilibra entre recordações da década de 1960 e os espectros da pandemia. Guiados pelo olhar de Rocha, os realizadores revisitam os locais retratados por esse filme icónico da década de 1960. As camadas geológicas, urbanas e sociais sucessivas da capital portuguesa, sitiadas pela Covid-19, que interrompeu as filmagens, são retiradas em frente à câmara, como uma improvisação de jazz contemporâneo. Na entrevista a seguir, concedida no Festival de Locarno, os dois explicam o método de construção de uma carta de amor à obra e à eternidade de um mestre.

Que procedimento de escuta e de observação guiaram o vosso olhar?

João Pedro Rodrigues:
Nós vivemos por Lisboa em um momento em que a cidade estava vazia. Começamos a filmar em 2019, antes da pandemia. O filme foi pensado sempre em ser feito aos poucos e não de uma vez. Nós tínhamos que filmar Lisboa em várias estações do ano, mas ocorreu a pandemia e o processo do filme foi interrompido várias vezes. Fomos filmando por uma Lisboa vazia, em que só se ouviam ambulâncias, bombeiros e hélices de helicóptero. Quando nós construímos a banda sonora, pensamos em encontrar o que há para além das imagens. É uma espécie de busca para filmar os fantasmas. Essa é a ideia: o que há para além do que vemos em cada imagem. Construímos nesse sentido uma banda sonora complexa, mas baseada sempre no som direto. O trabalho da música foi fundamental. No fundo a música está lá como uma espécie de memória do filme passado, do “Verdes Anos”. O filme é assombrado por outro filme e pela Lisboa que nós conhecemos e que não era a Lisboa da pandemia. Nós não pensávamos em ser um filme sobre a pandemia.

João Rui Guerra da Mata: O mundo está contaminado por imagens e as pessoas já não olham realmente para as coisas. Elas olham, mas não veem. Por isso, acho que o filme está tão contaminado de sons, de música, para que o som nos desperte. Hoje, não se pode mais ir à praia, onde for, sem ouvir música, ruído. A pandemia, com tudo de horrível que trouxe, deu ao mundo uma coisa extraordinária, que as pessoas não sabem ainda aproveitar: o silêncio. Neste nosso filme, temos duas camadas sonoras. Por um lado, ouve-se uma cidade que possui um ruido constante e passa a ser só pontuada por alguns carros de emergência. Por outro lado, ouvimos muito mais os animais, os pássaros mais selvagens voltam para a cidade.

Que dramaturgia o vosso processo observacional produziu?

João Pedro Rodrigues:
São pequenas histórias. No fundo são histórias quotidianas. Temos que pensar que aquela Lisboa é um sítio onde, no filme do Paulo Rocha, ainda encontrávamos um número grande de hortas. Havia cultivo. Agora, muitas das áreas que mostramos são parte de um espaço de lazer onde as pessoas vão passear e correr.

João Rui Guerra da Mata: Fizemos um filme contaminado pela vida. Parece que saímos ilesos e estamos todos vivos, a julgar pelas imagens que temos e pelo mundo onde estamos.

Qual é a dimensão fantasmagórica que esse filme tem para quem vê cinema em Portugal? Esse fantasma liberta ou aprisiona?

João Pedro Rodrigues:
Paulo Rocha foi meu professor, mas conheci os filmes dele primeiro. Foi um professor muito importante para minha formação. Foi libertador, pois me fez olhar para o cinema e para o mundo de outra maneira. O Paulo vivia no mesmo bairro onde nasci e sempre vivi. Existe uma ideia de filmar o que está próximo de nós e o que conhecemos. Eu só sei falar do que conheço. Os filmes são sempre sobre pessoas, mesmo não sendo biográficos.

João Rui Guerra da Mata: Não fiz escola de cinema. Só conheço o Paulo Rocha através dos seus filmes. Acho o “Verdes Anos” um filme incrivelmente moderno. É um filme não muito conhecido, como a maior parte do cinema português. Ele tem uma característica muito de Portugal da época, ao mesmo tempo, tem sutilezas politicas como a personagem feminina central, que é uma mulher que quer emancipação. O filme mostra a maturidade de uma forma muito dura. O que o Paulo faz em 1963 é mostrar uma outra Lisboa que não está representada no cinema português. Ele mostra ao público como é um trabalhador que vive numa casa miserável e vai nos trazer a juventude de então.

O quanto essa vossa Lisboa é, em si, um fantasma?

João Rui Guerra da Mata:
A Lisboa do João Pedro não é cartão postal. Nós começamos a olhar para Lisboa da nossa janela, mas dessa vez quase saímos por ela.

João Pedro Rodrigues: Há mistérios nos lugares e o Paulo Rocha estava sempre nos lugares. É como se, esses lugares, ao se deixarem filmar, revelassem a mim outros mistérios. Acho que filmar os lugares é uma forma de revelar os mistérios escondidos neles. Neste filme, de uma forma quase documental.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/lzi3

Últimas