Nathalie Baye: “nunca na minha vida pensei que ia trabalhar em cinema”

(Fotos: Divulgação)

Com uma carreira já a caminho das seis décadas, Nathalie Baye é um dos maiores nomes da atuação, não apenas gaulesa mas também internacional, já que pode ser vista em projetos de origens tão diversas como “Downton Abbey”, “Apanha-me Se Puderes”, “A Provinciana” e “Laurence para Sempre”.

Em França, teve o seu primeiro papel de relevo sob as ordens de François Truffaut, colaborando mais duas vezes com o cineasta e com nomes como Marco Ferreri (A Última Mulher), Bertrand Tavernier (A Última Mulher), Jean-Luc Goddard (Salve-se quem puder), Nicole Garcia (Encontro de Fim-de-semana), Bertrand Blier (O Padrasto) e Claude Berri (Um Parte, Outro Fica).

Agora, aos 74 anos, podemos encontrá-la nas salas em “Alta Costura” de Sylvie Ohayon, filme no qual interpreta Esther, uma das costureiras principais da casa Dior.

Foi em janeiro que falámos com atriz sobre este projeto e como tem sido a sua carreira. 

A Nathalie tem uma enorme carreira no cinema, o que a atraiu a este filme?

Bem, nunca aceitei participar num filme pelo papel que me oferecem, mas pelo todo. É que podes ter um bom papel, mas uma história que sabes que vai descarrilar. Como sempre, li muitas vezes o guião para entrar na personagem e mirei as ideias que existiam sobre todos os elementos. Só depois aceitei participar. A minha personagem é alguém com que me familiarizei, mesmo não sendo alguém muito simpático. Na verdade, ela é um pouco desabilitada no que diz respeito aos sentimentos. (…) Foi isso que me atraiu nela, pois ela vai-se transformar ao longo do filme e a pessoa que ela é no final do filme não é igual à do início. Quando vemos a sua antipatia sentimos que é alguém magoada, ferida, em particular na sua relação com a filha. Mas no final ela acaba por se humanizar.

Genericamente, o que a leva a aceitar participar num filme?

Escolho os filmes pelo desejo. Leio os guiões e em 10 há para aí 1 ou 2 que me interessam. E escolho-os não por um ou outro elemento, mas vários. Claro que quero saber quem realiza o filme, a história tem de me interessar, e a personagem tem de me dizer algo. Ás vezes também posso ter um tema interessante pela frente, mas a personagem não ser boa, ou o realizador envolvido não me agradar. 

E porque acha que a Sylvie Ohayon a escolheu para ser a Esther?

Não sei, mas nunca tive apetência para interpretar personagens que fossem parecidas comigo. Não sou pudica, mas ao longo destes anos nunca ousei questionar um realizador porque fui escolhida para determinado papel. No fundo, não quero saber sobre isso. Mas é verdade que muitas vezes me deram papéis de mulheres que aparentam serem frágeis, mas que na verdade são pequenos soldados.

Como foi a sua preparação para o papel e qual a sua ligação à Alta Costura?

Tive a chance de entrar e ver o trabalho nos ateliers da Dior e sentir que aquelas pessoas amam o seu trabalho de costura. Claro que é um trabalho fatigante, mas eles amam aquio que fazem.

E como foi a colaboração com a Sylvie? 

Estava tudo no guião, mas nas nossas conversas ela deu-me confiança para que eu trabalhasse a personagem. Não posso dizer que me dirigiu, mas falámos bastante.

Grande parte das suas cenas são partilhadas com a Lyna Khoudri. Como foi dividir o palco com ela?

Acho a Lyna Khoudri muito talentosa e houve algo muito comovente:  estivemos sempre a atuar sob uma aura de prazer. Muitas vezes dizemos isto na promoção aos filmes, porque soa bem para o marketing, mas neste caso foi tudo muito natural e tive muito prazer em partilhar o palco com ela. 

Desde o início da sua carreira, que começou nos anos 70, sentiu algum tipo de mudança no seu trabalho de atriz?

O trabalho de atriz tem mudado permanentemente. Não apenas no bom sentido. Mas, apesar de tudo, a minha carreira no cinema começou sob condições excecionais. O primeiro realizador com que trabalhei foi o François Truffaut [A Noite Americana, 1973], e foi uma aula de como fazer um filme. Antes disso nunca na minha vida pensei que ia trabalhar em cinema. Como é que isso aconteceu? Bem, quando saí do conservatório houve um agente que assistiu a um concurso de lá e me abordou. Ele sabia que o Truffaut queria alguém para o filme. Inicialmente, não achou que seria eu, mas mandou-me ir lá no dia seguinte. Eu não sabia nada do Truffaut. Fui lá, li uns textos e ele disse-me: “vais ser a Joëlle”. A vida foi assim e hoje em dia não me imagino sem estar nesta profissão. 

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