Cinco anos depois de apresentar “Verão Danado” no Festival de Locarno, Pedro Cabeleira levou até à Berlinale este ano uma curta-metragem, “By Flávio”, “o segundo filme de uma trilogia“ que terá em “Entroncamento” o seu último capítulo.
E se em “Verão Danado” encontramos jovens que “têm energia e gastam-na de forma quase anárquica”, e em “Entroncamento” iremos observar personagens “desiludidas com a vida” a entrar nos 30 anos, e que nunca transitaram para a grande cidade, em “By Flávio” existe um encontro de Lisboa com o interior, tudo a partir da história de uma mãe solteira, Márcia (Ana Vilaça), que combina um encontro com um rapper famoso que conheceu nas redes sociais. Porém, Márcia não tem quem cuide do filho, tendo que o levar consigo para esse “date”.
“Queria abordar o facto de uma mãe solteira, a partir do momento em que se transformou em mãe, ver o seu papel enquanto mulher [com desejos e ambições] acabar”, explicou Pedro Cabeleira ao C7nema em Berlim, detalhando as origens do seu filme e algumas opções estéticas. E falou-nos também de “Entroncamento” e de outros projetos que tem na agenda para a televisão, onde se inclui uma série documental, correalizada com João Miller Guerra, que vai explorar de um “ângulo mais humanista a condição de recluso”, tudo a partir de filmagens no Estabelecimento Prisional de Caxias.

Como é que começou esta aventura do “By Flavio”?
Tinha acabado o “Verão Danado” e estava a preparar uma longa, o “Entroncamento”, mas não estava a ser fácil conseguir financiamento. Para me manter ativo decidi fazer uma curta, pois era mais fácil conseguir apoios para a fazer. Queria trabalhar com a Ana [Vilaça], a atriz principal, e sabia que ela queria muito escrever. Desafiei-a a escrever e a ser protagonista. Escreveu juntamente comigo e com o Diogo Figueira, que é também quem escreveu o ‘Entroncamento‘ comigo. Cozinhamos então uma ideia, sempre com algumas balizas: a Ana seria a protagonista; a ação tinha de se passar na zona do Médio Tejo, pois ia filmar aí o ‘Entroncamento’ e queria aproveitar para trabalhar num cosmos semelhante. Tinha também de abordar o mundo do Rap.
Foi a partir de uma imagem que o Diogo tinha visto, de uma mãe numa sessão fotográfica, e quem tirava as fotos era o filho, que tivemos o nosso ponto de partida. Essa imagem fala muito da condição de mãe solteira, de ser alguém com ambições, mas com um filho, que é quem a ajuda nessa tarefa. Foi a partir destas bases que integrámos o Ribatejo, o Chullz, o Torres Shopping, local onde eu ia desde os 15 anos.
Um dos momentos mais importantes do filme é quando o rapper se apercebe que a mulher trouxe o filho para o “date”, atacando-a ao dizer que ela andava à procura era de um pai. Nessa cena há uma mensagem político-social clara, ou seja, estas mulheres querem viver e têm todo o direito de viver sem serem julgadas. Como trabalhaste essa sequência?
O filme é sempre mais sobre a Márcia, do que é ser mulher na condição de mãe solteira. Esta condição de monoparentalidade é muito mais comum nas mulheres que nos homens. Tentei de certa maneira desconstruir esta condição em Torres Novas, uma área mais interior e que por isso revela ser uma comunidade um pouco mais conservadora. Queria abordar o facto de uma mulher, a partir do momento em que se transformou em mãe, ver o seu papel enquanto mulher acabar. Nesse aspeto, a Márcia luta pela sua condição de ser mulher e tenta ter um “date” que considera promissor. No universo dela, isto é um evento, ainda por cima com um tipo com aquele tipo de mediatismo.
Além disso, ela é muito ligada às redes sociais e esse encontro faz parte das suas ambições. E não é por ela estar naquele microcosmos que vai deixar de lutar por isso. Tentámos tratar isso de forma a nunca criticar a sua opção de ter o “date” com o filho por perto. O facto da Ana trabalhar no argumento foi ótimo para nos dar confiança e desenvolver as coisas com naturalidade, como se vê na dinâmica mãe-filho, que foge do normal.

Sim, na verdade, mãe e filho, têm uma relação quase de irmãos…
Exatamente. É isso que acho interessante. No início, muitas pessoas dizem que não percebem pois parece que é o irmão que lhe está a tirar fotografias. Acho isso fixe, pois como ela foi mãe ainda muito jovem, tem uma dinâmica com o filho como se fosse um irmão.
E falando das redes sociais, como foi o trabalho – em termos estéticos e de linguagem de cinema – de integração no filme?
Depois de termos a história do ponto de vista formal, queria explorar ideias diferentes, desde o ponto de vista da câmara aos movimentos da mesma, e como incorporar este mundo digital no mundo físico. São duas realidades que estão a acontecer em paralelo. Por exemplo, até que ponto fazia sentido estarmos num plano dela e vermos o que ela está a ver no telemóvel – algo muito usado nas séries atualmente. Porém, do ponto de vista formal não estava muito satisfeito com as representações gráficas que haviam do ecrã, pois não as via como um tipo de grafismo cinematográfico.
Visto ser uma curta, quis experimentar esta ideia que vem dos primórdios do cinema e do “Life of an American Fireman”, onde vemos um bombeiro a dormir, a imaginar a mulher e o filho, e aparece um balão, uma íris. Pensei também num aproveitamento mais analógico do ecrã, e o Vasco Esteves [produtor] falou-me de um realizador que trabalha com bocados degradados de película. Na altura, a ideia chegou a ser incorporar o ecrã como se fosse uma mancha degradada de película. Trabalhámos os efeitos especiais nesse sentido, mas achei não estava a funcionar. Decidi então voltar atrás e regressar à ideia da íris. Contudo, como os ecrãs são retangulares e a íris é redonda, no filme essa representação ganhou um aspecto oval porque a íris para acompanhar a dimensão do ecrã teria de ser assim. Se fosse circular, mais fidedigna com os primórdios, cortava imensa coisa que aparecia no ecrã. Acabou por ficar oval e até parece o espelho da Branca de Neve.
E como lidaste com a improvisação no filme, ou seja, os atores estavam mais agarrados ao texto ou havia espaço para improvisarem?
No “Verão Danado” dei muito espaço para a improvisação, mas aqui quis experimentar algo mais estruturado de base, através de argumento com bons diálogos. O problema que se afigurou é que o texto é muito difícil ser orgânico numa conversa. Mesmo que esse texto esteja bem escrito, vai sempre soar a texto. Por isso, desta vez existiam balizas que o texto definia, como o “body sushi” a “shotgun”. A partir dessas chaves trabalho com os atores na base da improvisação. O que acontece é que, se no “Verão Danado” podíamos ter improvisações de 10 ou 15 minutos, no “By Flávio” tentei ao máximo limitar essa improvisação. Até porque, para mim, quando a improvisação se torna dispersa, já não é improvisação. Mas, por exemplo: toda a descrição do videoclipe é algo que o Tiago [Costa] dá, aquilo do Bispo foi a Ana que trouxe, etc.

A juventude é um tema recorrente nos teus filmes. Vimos isso no “Verão Danado” e aqui também. Vais no futuro continuar a olhar para ela?
Sim, pelo menos no “Entroncamento” é certo. São tipos diferentes de juventude, que acompanham também o nosso crescimento. Enquanto no “Verão Danado” temos personagens no início dos 20 anos, e no “By Flávio” já a meio dos 20s, no ‘Entroncamento” passamos para o final desses 20 anos e início dos 30 anos. Por isso, sim, apesar de continuarmos a nos focar na juventude, é um tipo de juventude diferente.
E temos assim uma trilogia…
Sim, embora inicialmente a ideia era serem dois filmes. O “Entroncamento” estava pensado com personagens na casa dos 25 anos e funcionaria como espelho do “Verão Danado”. Se um era Lisboa, o “Entroncamento” giraria em torno daqueles que ficaram para trás, no interior do país; daqueles que não tiveram oportunidade de sair das pequenas para as grandes cidades. Agora já não será um espelho do “Verão Danado”, mas vai acompanhar à mesma personagens que nunca saíram de um pequeno cosmos.
O “By Flávio” faz um Lisboa encontra o interior, mas o “Entroncamento” mostrará uma geração mais desiludida que a do “Verão Danado”. O “Verão Danado” tem energia e gasta-a de forma quase anárquica, enquanto no “Entroncamento” encontramos personagens mais desiludidas com a própria vida, que sentem que estão a chegar a uma idade em que parece um fim, onde não existem muitas mais ambições. E a partir disso vão surgir uma série de pequenos conflitos que são próprios do interior do país.

