Grande vencedor do Festival de Berlim, “Alcarràs” é um regresso entusiasmante da catalã Carla Simón, responsável por “Verão 1993”, no qual, de uma forma simples e natural, abordava um tema complexo e impatante: a morte da mãe e os reflexos dessa tragédia numa pequena rapariga, Frida, que enfrentava o primeiro verão com a sua nova família adoptiva, na Catalunha
Novamente um drama, “Alcarràs” – um verdadeiro “filho de Berlim”, já que começou o seu financiamento no mercado de coprodução da Berlinale – aborda o final dos tempos para um modo de vida, seguindo uma família rural que tem de abandonar o seu trabalho e local onde vivem há decadas após um acordo verbal do passado ser esquecido pelos herdeiros que detém as terras.
Foi ontem a 15 de fevereiro que nos sentámos com Carla Simón no Hotel Hyatt, em Berlim e falámos do seu filme, da sua atração ao mundo rural e aos relatos de infância. E abordamos também o seu futuro, no qual ficou prometido ainda mais luz para as suas histórias, a começar por um terceiro filme que vai encerrar uma espécie de trilogia.
A tua carreira encanta-me. Primeiro foi o “Verão 1993” e agora o “Alcarràs”, que sei que tem uma génese ligada ao teu tio que planta pêssegos. Mas além disso, o que te levou efetivamente a fazer este filme?
Quando o meu avô morreu, dei-me conta que o seu trabalho e legado nas terras podia acabar. Os meus tios herdaram as terras. A vida do campo é um trabalho duro, difícil e eles têm filhos. Um queria seguir a tradição familiar, outro não. Dei-me assim conta que este era um mundo que estava a acabar, que podia desaparecer. Cultivar a terra em família era algo difícil de manter, pois não é algo tão sustentável para uma família como era antigamente.
E gostas também muito de olhar para a infância. Já o tinhas feito no “Verão 1993”, mas aqui o olhar ainda é mais diverso. Olhas muito paras as brincadeiras das crianças, à dinâmica delas. O que te atrai a isso?
Vivi nestas terras como criança. Era um sítio de liberdade, de brincadeiras, etc. Para mim era muito natural fazer um relato com muitas personagens e um ponto de vista da nova geração sobre uma crise familiar. E é interessante ver como os mais pequenos adaptam-se a à nova realidade mais depressa que os adultos. Isso sente-se no filme, quando vão acabando todos os sítios onde podem brincar. No fim, encontram sempre um novo lugar. Por outro lado, ter crianças numa rodagem torna tudo mais vivo e acontecem muitas coisas que não podes controlar. Tudo isso dá um tom ao filme que gosto muito.
No teu cinema e em muito cinema espanhol, como vemos na Galiza e Extremadura, como o caso do “Destello Bravio” da Ainoa Rodríguez, cada vez mais se recorre a não-atores.
O que se passa connosco, não é? (risos)
(risos) Exacto… porquê essa opção ganhou tanta força recentemente? Os atores profissionais estão todos na Netflix ou quê?
(risos) Sabes o que penso? Acho que a cinematografia espanhola assenta muito na atuação. Creio que foi natural para nós procurar outros tons que contrastam com esses. Muitas vezes a solução passa por ter não-atores, ou atores profissionais que conseguem fazer isso de forma natural…

Consegues assim com eles um pouco mais de realismo?
Sim e as novas gerações de atores têm já uma maior naturalidade na atuação. Há que perceber que há grandes atores, mas essa é a questão. São atores. Especialmente os novos realizadores procuram mais a naturalidade dos não atores.
Isso nota-se no teu filme não apenas nas atuações, mas na ausência de grandes artificialismos,o recurso à luz natural, etc. É como aquela frase, “cada corte, uma mentira”.. (risos)
O cinema é mentira, concordo, mas há muito tempo percebi que os filmes que mais gostava de ver eram aqueles que retratam a vida como ela é. Não vou dizer que no futuro vou continuar sempre neste registo, até porque quero experimentar outras coisas, mas é verdade que na maneira de atuar gosto de sentir gestos espontâneos que a câmara possa capturar. Gosto de estar próxima do documentário.
E podemos dizer que oficialmente este filme insere-se numa trilogia? É que sei que depois do “Verão 1993” e “Alcarràs” vem aí o “Romería”…
Sim, vem aí o “Romería”, que fala um pouco da memória.
Este teu interesse pela ruralidade de onde vem?
A ruralidade para mim sempre foi algo muito cinematográfico. Além disso, venho de um vilarejo. Se formos a ver, muitos dos cineastas espanhóis que falamos que têm mostrado mais ênfase na ruralidade vêm desses locais. O rural faz parte do nosso mundo interior.
E provavelmente passaste a vida a sonhar em sair dessa pequena povoação, mas agora – e através do cinema – só te apetece voltar para lá. É isso?
É verdade. Quando aos 18 anos fui para Barcelona já não queria voltar para trás, mas agora “volto lá” em todos os meus filmes. A pandemia influenciou isso também. Muitos dos projetos rurais que falámos foram feitos antes da pandemia, mas depois desta muitos de nós começamos a dar mais valor ao mundo rural, especialmente num tempo onde falamos muito da desertificação desses povoados, da Espanha vazia. Não acredito que vamos todos novamente para esses vilarejos, mas é bonito ver as pessoas ponderarem isso. Além do mais, Espanha tem uma enorme tradição do cinema rural.

E o teu próximo filme. Já falaste que vai ter a memória como forte, mas é um regresso à ruralidade e à Catalunha?
(Hesita)… Não…Bem, tenho de perguntar ao meu produtor o que posso contar ou não (risos) Mas digo-te a ti que será filmado na Galiza, mas não no campo. (…) E desta vez haverá uma mescla entre atores e não-atores. Creio que existem histórias que beneficiam desses não-atores, mas outras não. Haverá uma mescla de experiências porque haverão (novamente) crianças…
Sempre crianças… (risos)
Sim (risos). Mas não tantos desta vez. E agora serão adolescentes. Serão estes os não-atores, mas os adultos não.
Além de ti e da Ainoa, há toda uma nova geração de cineastas em Espanha a dar cartas. Como vês isso?
Sabes, acho que nos afetaram tanto os anos da ditadura e bloqueio cultural. Cada geração afeta a próxima e neste momento estamos num movimento coletivo muito bonito, não apenas em questões de diversidade de géneros a realizar, mas na variedade das propostas cinematográficas. Além do cinema comercial e das séries, há cineastas que procuram o seu próprio caminho, como o Chema Garcia Ibarra e a Ainoa. Estamos habituados a fazer coisas com pouco dinheiro, não somos como as gerações anteriores que tinham mais verbas. Estamos num momento de explosão, com muitos talentos e muitas coisas para contar, e temos de agradecer a todos os que abriram o nosso caminho.
E hoje, quando fazes um filme, pensas no grande ecrã ou já tens um olho no streaming? Há muitos cineastas espanhóis cujos últimos filmes foram já para empresas de streaming, como o Paco Plaza.
Sim, é verdade. A minha custa-me ver essa situação (risos). Não me agrada nada sinceramente, mas também é verdade que os formatos estão a mudar e há que estar aberto a essa mudança. O importante é manter o lado artesanal do cinema. Há mil maneiras de contar histórias e eu tenho a minha forma de fazer as coisas. Há plataformas que têm a sua própria forma de trabalho, mas espero que existam outras que mantenham a ideia de deixar os cineastas terem as suas visões.

O “Alcarràs” foi afetado pela pandemia. Tudo o que vivemos nestes últimos anos mudou de alguma forma a tua maneira de ser e de ver as coisas no cinema?
Não sei. Atrasámos as filmagens do “Alcarràs” um ano por causa da pandemia, mas de certa maneira foi bom para mim. A verdade é que estávamos prontos para filmar e tivemos de parar tudo. Foi um golpe duro, mas tenho a certeza que este filme seria sempre parecido ao que ficou. Mas foi bom para iniciar o projeto que se segue. É mais fácil escrever quando estás em reclusão. Como estávamos em casa, nada acontecia na rua, conseguia me concentrar muito. Claro que a pandemia foi horrível, mas deu-me ferramentas para perceber o que necessito para escrever, ou seja, estar comigo mesma. E acho que agora, depois da pandemia, precisamos mais luz nas histórias do que a que havia antes. Antes isso já me parecia importante e tentava mostrá-lo no meu cinema.

