Não é fácil de digerir a primeira longa-metragem de Nicolas Roy, ele que já conta com várias curtas-metragens no seu reportório como realizador, e várias colaborações como montador nos filmes de Denis Côté.
Estreado no Festival de Karlovy, o seu “Guerres” promete causar burburinho ao contar a história de uma jovem que segue a via militar, acaba por se sentir atraída pelo seu superior, mas é violada por ele, provocando um enorme conflito de sentimentos em si e uma imprevisibilidade total no desfecho do filme, cujo argumento conta com a colaboração de Cynthia Tremblay.

“Começámos a trabalhar no guião há 5 ou 6 anos. Inicialmente era um argumento muito mais gráfico, com mais sexualidade. Achei que era um pouco demais e fomos ajustando durante uns anos. (…) Não queria mostrar as coisas graficamente (…) creio que mostro as coisas de forma respeitosa”, disse-nos Roy, no rescaldo da estreia mundial do filme. “Quando conseguimos financiamento, reescrevi os diálogos, que não são muitos. Ainda trabalhei neles com os atores e mudei várias cenas para tornar o filme mais meu.”.
Definindo o seu drama como uma continuação do seu trabalho nas curtas-anteriores, Roy concentra a sua atenção nas emoções, criando uma atmosfera sempre pesada sem recorrer a diálogos excessivos. “Queria mostrar pessoas envolvidas em várias lutas, guerras internas. Algo que se sentisse natural”. Por isso mesmo o filme é assente principalmente na expressividade corporal e mantém em permanente um ambiente sempre carregado.
Nesse sentido, a interação do realizador com os dois atores, David La Haye e Éléonore Loiselle, foi primordial, tendo o cineasta advertido ambos que a abordagem às personagens estava demasiado “over the top”. Foi assim exigido à dupla prestações mais contidas, que evocassem uma enorme tensão e transmitissem ambiguidade, algo conseguido até ao desenlace, onde existe uma inversão completa do poder entre as personagens.
“Não quis dar uma resposta definitiva no final do filme, fica entregue ao espectador o que acontece a seguir“, explica Roy, abordando de seguida o impacto que o seu filme terá depois do movimento #Me Too revelar-se extremamente ativo nos últimos anos: “É algo que está aí. Este filme começou a ser escrito pela Cynthia em 2004. Ela parou e recomeçou depois. Esse movimento não inspirou o projeto, mas olhando para agora creio que o filme vai impor algumas questões. Mal posso esperar pela reação do público. Já tive algumas conversas depois da sessão ontem , mas… este filme não é preto/branco. A mulher foi sexualmente abusada, mas simultaneamente tem uma obsessão por este homem. Ela luta contra estas emoções e isso não era certamente que irias esperar que acontecesse”.
Especialmente na América do Norte, “Guerres” poderá ser problemático, antevendo Roy que o público e crítica provavelmente irá atirar-lhe “alguns tomates à cara” no final da sua exibição. “Não estou preocupado. Creio que no final do filme ela recupera o poder para as mulheres. Creio que as pessoas vão ver isso, em vez de qualquer apologia ao abuso sexual. Mas certamente que alguns vão ficar, não digo chocadas, mas provavelmente frustradas (…) Espero que as pessoas vão ver o filme aos cinemas, quando estrear. E que exista um bom “boca em boca”.
O Futuro
Apesar de ter aqui a sua primeira longa-metragem e já estar a trabalhar noutro filme, Nicolas Roy garante que vai continuar no futuro com o seu trabalho de montador: “Ainda estou muito a trabalhar na montagem, mas estou também a escrever um filme. Quero fazer este projeto nos próximos anos. Sou feliz a fazer as duas coisas [realizar e montar]. Gostaria de ter mais tempo para escrever, mas vou aplicar-me mais quando terminar no próximo ano alguns trabalhos de montagem. O novo filme vai ser mais próximo das curtas que fiz, com a mesma personagem, cujo ator, o Martin Dubreuil, trabalho há anos. É um filme dramático sobre um casal, mas será menos intenso que o ‘Guerres’.

