Brotherhood: a história de três irmãos que serve também de alegoria à Jugoslávia

(Fotos: Divulgação)

Vencedor do Leopardo de Ouro na secção Cineasti del presente, “Brotherhood” do italiano Francesco Montagner foi uma das grandes sensações do Festival de Locarno. Um documentário com cerca de 70 dias de filmagens ao longo de quatro anos em plena Bósnia, junto a uma comunidade muçulmana, acompanhando três irmãos – Jabir, Usama e Useir –  que nasceram numa família de pastores e que têm de lidar com a idade adulta quando o seu pai, Ibrahim, um herói da guerra local, é detido depois de uma viagem não autorizada à Síria.

Um filme sobre irmãos pela primeira vez entregues a si mesmos e sem a presença física do pai, numa história que se podia confundir com a da velha Jugoslávia que começou a desmantelar-se progressivamente após Tito deixar de ser o seu líder. “Não trabalhei durante o filme nessa alegoria e paralelismo, mas ela existe e está lá pois as divisões originais são muito fortes, mesmo entre muçulmanos bósnios como vemos no filme”, explicou-nos Montagner em Locarno. “Escolhi este título, Brotherhood, pois tem múltiplos níveis de interpretação. Claro que existe o sentimento deles serem irmãos, mas o que isso na prática significa? E temos a ‘irmandade dos muçulmanos’, claro, mas também a irmandade do “como vamos viver juntos?”. Como encontramos um compromisso para viver em conjunto de forma democrática. Antes, quando o pai estava lá com eles, havia uma ordem, mas depois cada um deles começa a ter planos muito próprios”.

Brotherhood

Originalmente de Veneza,  Francesco Montagner encontrou grandes dificuldades em financiar o seu filme, primeiro porque tirando a nomeada ao Oscar Jasmila Zbanic, em 2010 em “Na Puto”, raros são os realizadores que tiveram acesso a esta comunidade. Depois, os produtores achavam que seria ainda mais complicado fazer um filme a partir dali tratando-se de um cineasta italiano num território estrangeiro. O tema da masculinidade, focado também em toda a história destes três jovens, foi também um elemento que não ajudou a conquistar orçamento nos primeiros tempos.

Para o jovem realizador, o desejo de filmar esta história nasceu depois de ver uma reportagem em Itália sobre a detenção de Ibrahim : “Em 2015 vi a história destes miúdos numa reportagem. Essa peça jornalística falava de um radical. Nessa história vi pela primeira vez a sua família e fiquei super interessado, pois normalmente nunca vemos estas pessoas tão perto. Interroguei-me como os jornalistas conseguiram. Decidi ir lá, conhece-los. Pela reportagem também percebi que os miúdos eram muito naturais, diferentes uns dos outros, simpáticos e queridos. Para ser sincero, não fazia ideia que este tipo de coisas estavam a acontecer num país geograficamente tão próximo. Conheço a cultura mediterrânea, a hospitalidade e fui lá. Quando lá estava, comecei a desenvolver uma relação com estes miúdos e com o pai. Curiosamente senti no passado a mesma frustração que eles tinham de viver no interior; o serem adolescentes, não terem um carro e quererem conhecer o mundo. No fundo, queres ser livre, mas não podes porque o teu pai prende-te num ambiente completamente diferente, ainda por cima num contexto agrícola Partilhava com eles esse sentimento. Tanto eu como o diretor de fotografia partilhamos as mesmas experiências que os rapazes, então compreendíamos o que estavam a passar e criámos laços com eles, sentindo assim o que sofriam. E, claro, havia a história do pai. Sempre questionei neste percurso que homens vão ser eles com um pai assim.”

Brotherhood

Quando Ibrahim é detido por participação na guerra síria e acusado de terrorismo, os três miúdos ficam entregues a si mesmos. Porém, e na realidade, a presença paterna nunca os abandona e comanda o sei dia a dia, qual fantasma, qual quê. Para Montagner, o pai é um dos fantasmas do seu filme, mas não o único: “O pai tem sempre uma presença muito forte neles, mesmo quando já não está. Um papel de influência nas suas vidas. Naquela comunidade o pai é visto como um herói de guerra. Por isso, para eles é muito difícil se afastar dele, mesmo estando ausente. Há muitos elementos fantasmagóricos nesta história. Existe o pai, mas também existem as marcas antigas da guerra. E essas marcas são físicas, como as minas ainda existentes, mas igualmente psicológicas, refletindo-se nos seus jogos e brincadeiras. O pai está sempre presente e eles têm sempre em mente cumprir com as expectativas que ele tem para eles. Além disso, cada um dos três miúdos tem o seu arco narrativo. O irmão do meio, o Usama, tem um arco trágico, pois o pai ama é o primogénito. O meu pai também era o irmão do meio e sempre sofreu com isso, pois o meu avô gostava mais do primeiro e do terceiro filho. Por isso, durante todo o filme, esse miúdo sente que tem de se tornar o pai para ser amado por ele. Imitá-lo, tentar ser um guia para o mais novos- E é trágico porque é o único dos três que realmente se esforça e trabalha para ser como o pai, mas no final é rejeitado por ele.” 

Influências e o futuro

Assumindo influências neorrealistas, mas principalmente do cinema político italiano dos anos 70 e do Cinema Novo Brasileiro, Montagner cita ainda Artavazd Pelechian e a sua “montagem à distância” como elementos com que gosta de jogar no seu cinema. A meio das filmagens deste “Brotherhood“, ele conheceu o cinema de Roberto Minervini, o qual começou a ser uma espécie de bússula, especialmente na vertente ética.

Depois de filmar na Bósnia “Brotherhood”, Montagner planeia filmar um novo trabalho em Cuba, país que compara – de forma curiosa – ao lugar onde filmou estes três rapazes. “Não sei, mas dá-me a sensação que são locais onde existe uma grande frustração.  Um dilema e impotência de estarem num paraíso, mas que também é uma espécie de prisão”.

Para já este projeto é apenas e só isso mesmo, mas com a vitória alcançada em Locarno, a hipótese de se tornar em realidade ficou com mais próxima.

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