Entrevista a Sean Bean (A Ilha)

(Fotos: Divulgação)

Nascido em Sheffield em abril de 1959, Sean Bean tem subido aos poucos os degraus do estrelato internacional. Começou em 1983 no teatro, a sua primeira grande paixão. Fez igualmente muita televisão, ficando neste campo o seu nome invariavelmente ligado à personagem Richard Sharpe.

No cinema é usualmente escolhido para ser o mau da fita, mas nem ele próprio sabe muito bem porquê. Nos tempos livres gosta de ler e, claro, acompanhar a carreira do Sheffield United, do qual é fervoroso adepto.

O c7nema.net esteve em Londres com Sean Bean, a propósito do filme The Island – onde interpreta a personagem do Dr. Merrick:


O que o atraiu em The Island?

Achei uma história muito boa. O tema é fascinante e ainda por cima é algo que sempre me interessou. Por outro lado, era uma combinação muito interessante daquela história com ação e humor, e com o Michael (Bay) a realizar, resolvi que queria mesmo fazer parte do projeto.

Qual é a sua opinião sobre a clonagem humana?

Bem, depende bastante de como é usada. Há coisas muito positivas, como ajudar as pessoas de várias formas. Mas quando falamos em recriar por inteiro uma pessoa, um novo ser humano, tudo dependerá de como for usada e se isso é aceitável moralmente.

O Dr. Merrick é mais um vilão no seu currículo…

Nem por isso. Ele tem os seus pontos positivos e os seus pontos negativos, depende da forma como o olhamos. Este tipo está a tentar salvar vidas, salvar a vida de crianças, melhorar a qualidade de vida das pessoas. Por outro lado, é uma espécie de “transportador da morte”, traz tristeza e sofrimento para aquelas pessoas inocentes que acreditavam na “Ilha” e a quem trata como uma espécie de insetos. Isso é o que choca.

E prefere interpretar os heróis ou os vilões?

Não me importo de ser vilão. E dentro desses gostei bastante do Dr. Merrick. Acho que há uma linha ténue entre o bom e o mau tipo. Ninguém é exclusivamente um tipo bom ou mau. Toda a gente tem os seus demónios.

Qual foi o maior desafio, e a parte mais divertida de fazer este filme…?

O desafio mais interessante é a própria personagem em si. Ele não é o típico vilão, não é simplesmente mau ou desprezível. É um homem que acredita no que faz, bastante ambicioso, e vê-se como um pioneiro, que na realidade é. Está a criar as bases para a cura de doenças, como ele próprio menciona ao tentar curar a leucemia em crianças, e há um sentido admirável na personagem. De qualquer maneira, o mais divertido foi aquela pose séria de médico, e tinha um escritório muito agradável.

E conseguiu trazer o Picasso falso do escritório?

(risos) Não, não trouxe, mas perguntei. Aparentemente vale uma boa quantia, mesmo sendo uma réplica de Picasso. Mas fiquei com os fatos (risos).

Também teve algumas cenas de ação com o Ewan McGregor. Essa é uma combinação ideal para si? Ação com uma história interessante?

Sim, sem dúvida. É ótimo vermos isso sobretudo no início, a forma como o filme está construído parece-me muito inteligente.

Como foi trabalhar com ele?

Nunca o tinha conhecido antes deste filme, mas foi bom, tivemos boas cenas juntos.

Incluindo algumas de luta…

Bem… há coisas engraçadas sobre as cenas de luta. Perto do fim, quando estou a “estrangulá-lo”, eram na realidade duplos, e a cena estava a ser trabalhada em Los Angeles comigo, e o Ewan estava em Londres, por isso nunca chegámos a fazer essa cena juntos (risos). É engraçado.

Eu já estava a trabalhar noutro filme e o Ewan já estava a fazer o Guys and Dolls no teatro, por isso era complicado conseguirmos fazer a cena juntos. Mas sim, as do escritório estávamos no mesmo local (risos).

O lançamento do filme nos Estados Unidos ficou abaixo das expectativas. Isso tem acontecido este ano com algumas produções de grande orçamento. Porque lhe parece que isto está a acontecer?

Realmente não sei muito bem porquê. São investimentos muito grandes (feitos nos filmes), mas na maioria dos casos acabam por render o custo. Se não for na sala, depois nos DVDs.

De qualquer maneira, acho que o cinema continua a ser um bom investimento. Quando vemos produtos como The Island, um filme sobre as pessoas e como interagem umas com as outras, e não apenas um filme de ação. Talvez as pessoas o imaginem como um filme de ação, mas é tão mais que isso. Talvez o marketing em torno do filme possa ter confundido os espectadores.

Mas acha que o público achou que se tratava de um filme diferente do Michael Bay?

Talvez pensem que é apenas mais um filme de ação. E é mais do que isso. O Michael deu muito por este filme, e talvez no futuro comecemos a ver o trabalho do Michael como mais que ação. Este filme é muito desafiador de forma dramática e psicológica.

Há uma componente forte de Big Brother neste filme. É fã da “reality tv”?

Odeio, detesto esse tipo de programas. Já vi bocados de programas como o Big Brother e não entendo como é que pode cativar o público, pois na maioria do tempo não acontece nada, mas toda a gente vê. Também não entendo como os concorrentes se colocam nesse papel.

Acredita que a ilha será, um dia, real?

Sim, é possível. Essas pesquisas acredito que estejam já a decorrer. Mas são necessários grandes investimentos e, para já, uma sociedade organizada como aquela parece-me ainda remota. Mas se existirem os investimentos, acho que irá acontecer, sim. Nem será tanto uma questão do que acontecerá, mas de quando acontecerá. Mas depois começamos a pensar num projeto como aquele nas mãos de um ditador, por exemplo, e é aterrador.

É descrito por alguma imprensa como o “ator mais versátil de Inglaterra”…

Sim? Parece-me um bom elogio. Tento diversificar o que faço. Tenho agora novos projetos a caminho e são também papéis bastante diferentes entre si. E tenho igualmente a sorte de poder ter hipótese de escolher o que quero fazer.

E voltar a Yorkshire para participar em filmes mais pequenos?

Claro que penso nisso. Já tive alguns convites que não pude aceitar por causa de compromissos anteriores, mas será ótimo voltar. Fazer algo com um significado para aquela zona em particular, para Yorkshire e Sheffield. Não me lembro de terem sido feitos muitos filmes que retratem aquela zona em particular. Lembro-me do Full Monty e pouco mais.

O Sean agora consegue “disfarçar o sotaque” e facilmente fazer papéis de inglês ou de americano…

É verdade. No Flight Plan, um filme que fiz com a Jodie Foster, também vou desempenhar o papel de um inglês. Mas é engraçado, pois também fiz um outro filme chamado North Country, onde vou desempenhar o papel de um tipo do Minnesota. No Silent Hill também serei americano. Penso que, para mim, é bastante bom. Nunca tinha desempenhado americanos e assim torna-se mais fácil conseguir trabalho.

A sua casa continua a ser Londres?

Sim. Passo cá pouco tempo, mas desta vez já estou cá há dez dias. Embora passe cerca de oito meses por ano em Los Angeles, considero que a minha casa é Londres.

E do que sente falta durante essas ausências?

Da vida londrina em geral. Eu gosto de Los Angeles, gosto de trabalhar lá, mas há coisas que têm pouco a ver comigo. É aqui que me sinto em casa, a minha família está cá, os meus amigos estão cá.

Pode falar um pouco de Silent Hill. Interpreta uma personagem chamada Christopher…

Sim. É um homem bem-sucedido, vive com a mulher (interpretada pela Radha Mitchell) e uma filha ainda pequena, que está obcecada por um local chamado Silent Hill. Um dia, ambas desaparecem. É um filme sobre locais diferentes, níveis diferentes e tempos diferentes. Não é um filme de horror puro, mas é bastante perturbador. Eu, pessoalmente, nunca joguei o jogo, mas os meus filhos já e dizem que é bastante desafiador. É uma personagem bastante interessante e é um dos poucos homens do filme. É quase só mulheres.

Quando começou a carreira de ator, há pouco mais de 20 anos, era aqui que pretendia estar hoje?

Penso que não esperaria tanto. Quando estava a estudar e comecei a trabalhar no teatro, não tinha grandes planos além disso mesmo. Pensava que já me daria por feliz se fosse conseguindo trabalhar como ator. Basicamente, o meu objetivo era conseguir ganhar a vida. O cinema foi algo que aconteceu e estou contente por isso, mas o primeiro amor era realmente o teatro, fazer Shakespeare e os clássicos.

E costuma ir ao teatro na América?

Não, nem por isso. Nunca fui porque Los Angeles não tem muita escolha em termos de teatros. Se estivesse em Nova Iorque, possivelmente iria.

E o que gosta de fazer nos tempos livres?

Adoro ver desporto na televisão, ler e apreciar os momentos em que posso não fazer rigorosamente nada.

E que livro tem na cabeceira de momento?

Estou a ler um livro chamado The Game, do Jack London, e acabei agora de ler um sobre a história do Terceiro Reich e um outro sobre o Sheffield United.

E consegue acompanhar o futebol inglês?

Consigo pelo telefone. Estou a pensar comprar um computador para ir acompanhando pela Internet. É complicado porque geralmente no pontapé de saída são 5 da manhã em Los Angeles. Não é muito prático, só para quem se levanta muito cedo (risos).

Entrevista conduzida por Carla Calheiros

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