José Garcia é divertido e cordial, Costa-Gavras não parece notar o respeito que a sua figura emana e é também bastante cordial. Assim, foi num ritmo descontraído e muito conversado que decorreu a entrevista com o realizador e com o ator do filme Le Couperet, a película inaugural da 6ª Festa do Cinema Francês.
Costa-Gavras começou por elogiar Garcia, o seu desempenho como ator e a sua personalidade enquanto pessoa. Garcia, ao mesmo tempo que lhe respondia em francês, gracejava com os cinco jornalistas presentes em galego, com alguns toques aportuguesados. Mas foi num francês mais académico que Costa-Gavras começou por explicar o objetivo do filme. “Este é um filme de género policial, fala da perda do trabalho e dos problemas que isso traz à família. Fala das dificuldades de perder tudo e de mudar completamente de nível social. É ficção, mas é uma metáfora exagerada para sublinhar tudo o resto.”
Mas foi este filme inspirado num caso real? “Claro que não, não penso”, responde rapidamente o realizador, perante os risos de Garcia. “Se aconteceu algo assim, eu não tenho conhecimento…” Talvez este filme dê algumas ideias…
No que se refere à produção, o realizador começou por falar de toda a equipa que o ajudou a produzir este filme e a torná-lo no que é hoje. No entanto, a produção, para o realizador, tem um carácter muito particular, já que “cada vez mais o financiamento pensa que o cinema é menos entertainment e mais divertimento, numa ideia que vem da televisão.” O realizador não pôde deixar de referir também a colaboração com Jean-Claude Grumberg, com quem escreveu o argumento. “Já tínhamos feito filmes juntos e correu tudo lindamente. Eu dou-lhe algumas ideias e ele escreve tudo de forma contínua e está sempre em atividade criativa. Discutimos bastante as ideias e chegamos a um consenso. É muito bom.”
Embora este filme tenha uma personagem feminina relativamente forte, as personagens dos filmes de Gavras são maioritariamente masculinas, mas “não é por nenhum motivo especial, é um efeito da nossa sociedade, ainda não há muitas mulheres que se imponham e ganhem posições de destaque.”
E quanto a Bruno Davert? Coube a José Garcia explicar a personagem: “Ele vê que a sua vida está de pernas para o ar e que a sua família é a única coisa que lhe resta e que é capaz de tudo para a proteger. O que ele faz, faz para sobreviver.” Costa-Gavras acrescenta que “ao criar esta personagem, quero que o espectador simpatize com ele numa primeira fase, mas depois o deteste. Foi bom trabalhar com o José, porque ele dá os dois lados à personagem e permite ter ambos os sentimentos.”
No fundo, Bruno é um lutador… “O seu pai lutou contra os nazis… ele, com a sua arma, luta contra a concorrência. É a lei da guerra!!!”
O historial de Costa-Gavras é já longo e o realizador trabalhou com grandes atores. “Jack Lemmon, eu dava-lhe as coisas na quarta à noite e na quinta ele aparecia com tudo feito. Yves Montand, com ele trabalhei em cinco filmes, é um amigo, é ele que compõe as personagens. O John Travolta é como o Yves… e dança! Dustin Hoffman chega cada manhã com uma pilha de perguntas para me fazer sobre a personagem…”
E José Garcia? “José Garcia… este não é um filme cómico e nele o José não é um ator cómico. Temos uma relação ótima.” Ao que o ator acrescenta que se apaixonou pela história. Quando confrontado sobre se era mais difícil fazer comédia ou drama, não se coibiu de dizer que “são ambos difíceis de modo diferente, este filme tem muito humor negro.” O realizador acrescentou que “o José é um ator de qualidade e que faz personagens burlescas. Ele mantém-se firme na sua personagem, e eu gosto disso.” José acrescenta que é um pouco como a commedia dell’arte, “coloca-se uma máscara e não se tira a máscara até ao fim. E este filme tem algumas cenas bastante burlescas.”
Como não podia deixar de ser, a conversa resvalou para o cariz político do cinema de Costa-Gavras. Segundo o realizador, o poder político não dificulta o processo de fazer filmes, porque “não há muita sublevação. Depois dos anos 60 todos os cineastas estão reduzidos a outros temas.” Não nega, no entanto, que a sua câmara tenha passado por uma fase política… “Hoje em dia a sociedade mudou muito e, nos países da Europa, a nossa sociedade política está cada vez mais preocupada com a economia e menos com o homem.” Este é, de resto, o tema quente do filme!
E em relação ao estado atual do cinema europeu? “É um cinema criativo, com ideias muito diferentes. Tenho amigos americanos que fazem a seleção para melhor filme estrangeiro e acham os filmes europeus muito parecidos. Eu acho que há uma diversidade cada vez maior, mas é preciso haver mais co-produções entre países e cada país apostar mais nas suas próprias histórias.”
José Garcia acrescenta: “Quando estive na Galiza, estavam lá muitos realizadores que não se conheciam entre si nem conheciam realizadores franceses. Embora tenham muitas condições de trabalho, não há organização nem mecanismos que protejam os realizadores.”
Costa-Gavras refere que “embora o cinema seja algo pessoal, acaba por depender da economia de distribuição.” E acrescenta que o poder político devia apostar nas co-produções cinematográficas. “Nunca têm dinheiro para nada relacionado com o cinema e depois querem que os filmes tenham milhões de espectadores. Isso não é possível.”
Segundo Garcia, não há relação cinematográfica entre a Espanha e a França, apenas com alguns países africanos e com o Canadá. Apesar do estado do cinema europeu, o realizador prefere trabalhar na Europa. “Fiz o Missing, o Betrayed, Music Box e o Mad City em Hollywood, mas a sonorização e a montagem fiz sempre em Paris.”
Neste momento despedimo-nos de José Garcia, que se ausentou para uma entrevista em direto. Despediu-se com um cordial “até logo”, e as perguntas a Costa-Gavras tomaram um cunho mais pessoal, nomeadamente sobre a sua origem grega: “Nasci na Grécia, que é um país de emigrantes, mas vivo em França e tenho nacionalidade francesa.”
Em relação a projetos futuros, está tudo no segredo dos deuses; o realizador apenas referiu que gostaria de trabalhar novamente com José Garcia.
Despedimo-nos então do realizador, que ainda conversou, em tom informal, sobre a política atual. “Filmes sobre políticos? Não! Neste momento não é interessante para ninguém!”
Entrevista conduzida em 2005 por Cátia C. Simões

