“E no final, Emília morre e o Júlio fica sozinho”. Pronto. Para o seu segundo filme (depois de Optical Illusions, de 2009), o chileno Cristián Jiménez corta pela raiz a curiosidade do final da novela que adapta. É, de resto, com esta frase em off que começa Bonsai, curiosamente, um filme em que o protagonista, Julio (Diego Noguera), usa a mentira como forma de superar a timidez e depois até para alimentar a vida a amorosa. Servindo-se de alguma liberdade e até sentido de humor, Jiménez mostra dominar a arte ao tornar concisa a adaptação da novela de estreia de Alejandro Zambra, já de si com menos de 100 págs. Tal como um Bonsai, este é um filme que merece o cuidado de o apreciar, saborear, absorver. Depois das imagens, foi o que fizemos com as palavras deste promissor realizador durante a conversa a céu aberto, há pouco menos de um ano, no festival de Cannes.
É interessante a forma como funde neste filme a realidade e a ficção, a verdade e a mentira. Foi algo que ficou claro logo a partir da novela que adaptou?
Sim, a ficção como tema também faz parte da novela. Para mim, como realizador, isso é um elemento decisivo. Aliás, eu vejo este filme como colocando-se ao lado da ficção. E logo num momento em que, digamos, nos últimos cinco anos, a ficção tem adquirido uma conotação pejorativa, por oposição a algum excesso de espontaneidade, naturalismo ou realismo. Eu prefiro usar a estrutura e a forma.
Já conhecia há muito tempo o livro de Alejandro Zambra?
O livro foi publicado em 2006, é bastante contemporâneo. E o autor é da minha idade. É, no fundo, um livro de geração. Por acaso, na primeira vez que o li não vi logo o filme. Gostei muito, mas não vi essa possibilidade de o adaptar para o cinema.
Achou-o muito pessoal, foi isso?
É um livro muito baseado na presença do narrador. Normalmente, este tipo de narração costuma ser muito discreta. Mas aqui tudo voa, dois anos passam no mesmo parágrafo. É extremamente minimalista. Tem menos de 90 páginas. Mais como se fosse um resumo de um livro. Uma espécie de anti-Proust. Mas na segunda vez que o li, um ou dois anos mais tarde, já tinha feito o meu primeiro filme e estava à procura de ideias novas. Nessa altura, o autor era completamente contra a ideia de fazer a adaptação…
Porquê?
Acho que ele tinha receio de que se fizesse um filme pretensioso. Algo que o pudesse envergonhar. Por sinal, essa era também uma das minhas maiores preocupações. Felizmente, acabou por ficar convencido com a minha abordagem. E juntou-se mesmo à nossa equipa.
Qual é para si a metáfora de Bonsai?
Para começar, eu não respeitei totalmente a narrativa do filme, mas retirei alguns elementos do livro e desenvolvi-os. Tal como a presença do bonsai no final. No fundo, uma história dentro de outra história.
Quando leu o livro da segunda vez, já percebeu onde se encontrava a sua ferramenta cinematográfica?
Acho que me seduziu o lado geracional da história. Mas também a solidão, um tipo de solidão que não era muito habitual. Seguramente não no tempo dos meus pais, em que existia mais um projecto colectivo de mudar a sociedade, de combate à ditadura. No nosso caso, chegámos aos 20 anos e percebemos que estávamos sozinhos. E para essa solidão acho que não estávamos preparados. Os livros acabaram por ser o nosso refúgio. Ao mesmo tempo, o livro Bonsai tem a sua estrutura e forma. Mais do que uma história, existe um objecto formal. Isso era algo importante para mim.
Por falar nos seus pai, lembra-se de quando sentiu despertar em si a vontade de escrever?
Comecei a escrever na minha adolescência. Poesia, pequenos contos. Entretanto, com os meus 20 anos, quando ainda estudava Sociologia, comecei a interessar-me pelo cinema. Tinha amigos na escola de cinema e comecei a ajudá-los com guiões. Entretanto, comecei também a fazer curtas metragens, mas tudo muito amador. Foi depois fazer a minha pós-graduação em Londres em Sociologia e acabei por trabalhar na televisão, o que me deu alguma bagagem para perceber como funciona esta cadeia de produção. Foi aí que decidi passar a fazer cinema.
Depois de Optical Illusions, achou que queria fazer algo diferente?
Essa era uma experiência muito mais social e colectiva. O espaço das personagens era totalmente diverso. Aqui é mais a experiência de uma pessoa que analisamos de perto. Por vezes, perto demais. Este é mais um filme sobre pessoas que vivem dentro do seu corpo.
Podemos encontrar algo de si próprio na personagem de Júlio?
… Talvez, um pouco… (risos) Tem uma abordagem da minha geração, da nossa geração. O amor perdido. Não é tanto uma experiência pessoal.

