Entrevista a Sébastien Lifshitz – ‘Wild Side’

(Fotos: Divulgação)

Sébastien Lifshitz nasceu em 1968 em Paris. Formou-se na escola du Louvre e licenciou-se em História de Arte na Sorbonne. Em 1989, foi assistente de Bernard Blistène, conservador de arte contemporânea no Centro Georges Pompidou, nas exposições consagradas a Richard Artschwager, Esward Ruscha e Andy Warhol. Em 1991, foi assistente da fotógrafa Suzanne Lafont. Só depois a sua carreira se orientou para o cinema.

Wild Side

Em 1993, realizou “Il Faut que ja l’aime”, a sua primeira curta metragem seleccionada para vários festivas de curtas metragens internacionais. Depois, uma média metragem documental sobre Claire Denis em 1995, “Claire Denis la Vagabonde”. Na sequência dessa sua obra trabalha como assistente de realização da autora em “Nenette et Boni”.

O seu filme seguinte “Les Corps Ouverts”, de 1998 é a sua primeira média metragem de ficção. Será notado em vários festivais e ganha o prémio Jean Vigo de melhor Curta metragem.

Presque Rien” (1998) é a sua primeira longa metragem de ficção ao qual se seguirá o sublime “La Transverseé” em 2000, que num registo de inquérito biográfico, mostra a mestria de um realizador ao serviço dos sentimentos mais íntimos.

É a propósito da sua última obra “Wild Side” e da sua exibição em Portugal, por ocasião da 5ª edição da Festa do Cinema Francês, no cinema S. Jorge, que o C7nema teve ocasião de o entrevistar.

Filmografia

Wild Side (2004)
Traversée, La (2001)
Presque rien (2000)
Terres froides, Les (1999)
Corps ouverts, Les (1998)
Il faut que je l’aime (1996)

Na sua obra anterior, “Presque Rien” tentou compor uma paisagem visual interior de uma personagem, Mathieu. Tentou fazer o mesmo em “Wild Side” multiplicando pelos três protagonistas deste obra?

É verdade que este filme parte do mesmo raciocínio, uma vez que em todas as minhas obras essa ligação à sociedade existe realmente. Os meus filmes não são olhares sociológicos sobre as personagens, são filmes que tentam reconstruir os seus mundos interiores e fazer o retrato dessas personagens. É verdade que em “Wild Side”, tentei construir três retratos e de ver até que ponto esse retratos se podiam inter-penetrar e criar laços uns com os outros. Criar uma espécie de caminho que esse triângulo pudesse percorrer.

 “Wild Side” é um filme sobre transexualidade?

Para mim não. Para mim a transexualidade é um elemento no filme. Não é uma obra sobre transexualidade mas com transexualidade, o que é diferente. É como “Presque Rien” que também não é um filme sobre homossexualidade mas com homosexualidade. Não é a mesma coisa.

São as personagens ou a história que “guiam” os seus filmes?

Normalmente são mais as personagens e mais concretamente as suas pulsões, os seus afectos que imprimem à história uma certa direcção. No final, a estrutura narrativa é muitas vezes fragmentada e agrada-me também que seja a dramaturgia da história a impôr uma caminho aos personagens. Em “Wild Side” tudo foi mais livre, se quiser uma tentativa de fazer uma espécie de poema visual e sonoro.

Qual a fonte de inspiração para as suas personagens?

S.L.: Isso varia muito. Muitas coisas. Pessoas que conheço, histórias que observo, episódios pessoais. Em França, actualmente há uma espécie de formatação no cinema que é muito importante na ficção clássica. Comédias, filmes para um público burguês… E por isso é muito difícil filmar personagens diferentes, um pouco marginais, que escolheram modelos de vida diferentes das normas. E “Wild Side” presta homenagem a esses personagens e um pouco a forma destes criarem laços e viverem uma história de amor de outra maneira. E desta forma mostrara que a sociedade francesa é muito mais diversa do que aquilo que podemos imaginar. Isto apesar de “Wild Side” não ser um filme social, é mais uma obra sobre um mundo do que uma sociedade. Isso é muito importante para mim.

Alguma crítica faz uma relação entre “Jules et Jim” de Truffaut e “Wild Side”. Que pensa desta comparação?

Gosto muito desse filme de Truffaut. É um filme muito romântico com uma dimensão romanesca muito forte. Ambos os filmes foram rodados em scope, “Jules et Jim”, a preto e branco. Claro que é uma comparação que me dá prazer ouvir. Mas “Jules et Jim” é um filme muito escuro, um verdadeiro drama. Ela no final suicida-se perante o olhar dos dois homens que ama. Já em “Wild Side” apesar da dureza do mundo que ele trás, está carregado de esperança., mesmo que essa esperança seja muito frágil. Já “Jules et Jim” é um filme deseperado.

Quais as características formais do seu filme que gostaria de destacar?

S.L.: Há uma linha de tensão entre dois aspectos. Quis trabalhar a imagem de maneira muito cinematográfica., com o cinemascope, cores bastante saturadas, uma montagem de pequenos choques. Isto em contraste com a presença de Stéphanie Michelini, que em minha opinião dá um certo tom quase documental à obra. Isso opõe-se a um dispositivo muito ficcional composto pelo scope, pela música, pelos cenários. E esta oposição torna “Wild Side“mais híbrido e para mim mais interessante, dessa perspectiva.

Acha que os seu filme transmite uma mensagem pessimista e depressiva?

(Risos) “Wild Side” não. “Wild Side” descreve um mundo muito duro e marginal, mas as personagens são habitadas por um sentimento de liberdade, humanidade e amor muito fortes. Mesmo no último plano do filme, em que os três dormem uns sobre os outros, há um futuro possível, mesmo que frágil.

Há preocupações constantes no seu processo de criação?

A questão de identidade é verdadeiramente central, assim como da família. Quando falo da família não é apenas a real mas aquela recomposta pelas nossas vivências. E a questão da identidade, saber-se quem se é.

Que pensa do cinema francês contemporâneo?

Não o acho muito interessante. Acho o cinema francês muito conformista, muito formatado. Não existem novas correntes estéticas fortes ao contrário que se passa no cinema asiático ou mesmo o cinema americano independente. O cinema francês é em geral sem interesse. Há excepções. Sobretudo filmes que prucuram novas estéticas, novas fórmulas e novos temas. Mas não há público para esse filmes. Em parte, porque o público francês tem vindo a tornar-se cada vez mais convencional.

Projectos para o futuro?

Estou de momento a escrever um argumento. Só posso adiantar que será uma ficção.

Entrevista conduzida por Carlos Natálio

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