A Pré-História desanimada da Marvel

Perante toda a especulação das cadeias de exibição acerca do êxito comercial de Spider-Man: Brand New Day, parece impossível imaginar um panorama cinematográfico sem a Marvel. O estúdio domina a cultura popular desde a transição da década de 1990 para a de 2000, transformou o conceito de universo partilhado na principal estratégia da indústria e converteu personagens outrora conhecidas apenas pelos leitores de banda desenhada em algumas das figuras mais reconhecidas do entretenimento mundial. Contudo, antes da estreia de Blade, em 1998, a realidade era precisamente a oposta. A Marvel era uma potência editorial incapaz de converter o seu extraordinário património criativo em êxitos para o grande ecrã.

Durante quase quatro décadas, a editora criada por Martin Goodman e transformada por Stan Lee, Jack Kirby, Steve Ditko, John Romita Sr. e tantos outros autores assistiu ao triunfo da sua principal rival, a DC Comics, nas salas de cinema. Enquanto a Marvel acumulava adaptações modestas e frequentemente esquecíveis, a DC estabelecia novos padrões para o género ao confiar as suas personagens a realizadores com uma forte identidade artística. Richard Donner transformou Superman (1978) numa aventura épica que redefiniu o conceito de blockbuster de super-heróis, enquanto Tim Burton reinventou Batman (1989) com uma abordagem sombria, expressionista e profundamente autoral. A mensagem era clara: os heróis da banda desenhada podiam ser tratados como grande cinema sem perderem o seu apelo popular.

A Marvel, pelo contrário, parecia condenada a produções marcadas por limitações financeiras, efeitos especiais rudimentares e uma dificuldade constante em convencer Hollywood de que as suas personagens tinham verdadeiro potencial comercial.

Curiosamente, foi na televisão que esses heróis encontraram um público fiel. A maior prova disso foi The Incredible Hulk, exibida entre 1978 e 1982. Protagonizada por Bill Bixby como David Bruce Banner e Lou Ferrigno como Hulk, a série abandonava boa parte da exuberância da banda desenhada para privilegiar uma estrutura dramática inspirada em séries como The Fugitive. Em cada episódio, Banner chegava a uma nova cidade, tentava reconstruir a vida e acabava envolvido em conflitos humanos antes de se transformar no gigante verde. Encerrava a sua passagem por cada local com uma despedida, embalada por uma música tristíssima.

A produção tornou-se um fenómeno internacional e fez de Ferrigno um dos rostos mais reconhecíveis da cultura popular da época. O ator, praticamente sem diálogos, construiu um Hulk simultaneamente ameaçador e melancólico, enquanto Bill Bixby conferia uma dimensão emocional rara ao cientista perseguido pela própria condição. Muito antes de existir o Universo Cinematográfico Marvel, aquela série demonstrava que havia um enorme potencial dramático escondido nas personagens da editora.

A série do Homem-Aranha dos anos 1970 Crédito: CBS

O mesmo aconteceu com The Amazing Spider-Man, exibida entre 1977 e 1979 e protagonizada por Nicholas Hammond. Embora os recursos técnicos fossem extremamente limitados, a série conquistou um público fiel. As acrobacias recorriam a cabos muitas vezes visíveis, as sequências de escalada repetiam frequentemente os mesmos planos e os efeitos especiais estavam longe do dinamismo prometido pelas páginas da banda desenhada. Ainda assim, Hammond tornou-se o primeiro Peter Parker para toda uma geração de espectadores.

Também a animação revelava as limitações da Marvel enquanto propriedade audiovisual. As séries produzidas na década de 1960 adaptavam aventuras de personagens como Homem-Aranha, Capitão América, Hulk, Thor, Homem de Ferro e Namor através de uma técnica extremamente económica. Em vez de verdadeira animação, reutilizavam diretamente ilustrações das próprias bandas desenhadas, movimentando apenas braços, pernas, olhos ou bocas sobre imagens praticamente estáticas.

O desenho nada animado de Namor, o Príncipe Submarino

O resultado produzia aquilo que muitos espectadores definiriam, anos mais tarde, como um “desenho desanimado”. A sensação era a de ver páginas impressas a deslizarem pelo ecrã, com movimentos mínimos e uma evidente precariedade técnica. Ainda assim, essas produções tiveram uma enorme importância histórica, pois apresentaram o universo Marvel a milhões de crianças muito antes da explosão cinematográfica do século XXI.

No grande ecrã, porém, o cenário era bastante diferente. O exemplo mais célebre continua a ser Howard the Duck (1986), produzido por George Lucas. Baseado na irreverente criação de Steve Gerber, o filme tornou-se um dos maiores fracassos comerciais da década e, durante muitos anos, foi citado como símbolo das dificuldades da Marvel em adaptar as suas personagens ao cinema.

A situação não melhorou nos anos seguintes. The Punisher (1989), protagonizado por Dolph Lundgren, teve uma distribuição limitada e nem sequer chegou aos cinemas norte-americanos. Captain America (1990) sofreu com um orçamento reduzido e efeitos especiais pouco convincentes. Ainda mais emblemático foi The Fantastic Four (1994), produzido por Roger Corman apenas para impedir que os direitos cinematográficos da equipa regressassem à Marvel. O filme nunca chegou ao circuito comercial e tornou-se uma das obras mais lendárias da história das adaptações de banda desenhada precisamente por quase ninguém o ter visto oficialmente.

No início da década de 1990, a própria Marvel atravessava uma profunda crise financeira. A empresa acabaria por declarar falência em 1996 e sobrevivia, em grande medida, graças ao licenciamento das suas personagens a diferentes estúdios. Naquele momento, parecia impensável imaginar que aqueles mesmos heróis viriam, poucos anos depois, a dominar por completo a indústria cinematográfica mundial.

Foi precisamente neste contexto que surgiu Blade. Em vez de apostar numa das suas personagens mais famosas, a Marvel levou ao cinema um caçador de vampiros relativamente desconhecido do grande público. A aposta revelou-se revolucionária. Realizado por Stephen Norrington e impulsionado pela presença magnética de Wesley Snipes, o filme arrecadou mais de 130 milhões de dólares em todo o mundo e provou que uma adaptação da Marvel podia ser elegante, violenta, adulta e comercialmente bem-sucedida.

Mais importante do que a receita de bilheteira foi o efeito que desencadeou. Hollywood voltou a olhar para as personagens da editora como propriedades cinematográficas de enorme potencial. Em poucos anos, chegariam X-Men, Spider-Man e, posteriormente, Iron Man, inaugurando um dos mais impressionantes ciclos de sucesso da história do cinema popular.

À distância de quase três décadas, percebe-se que Blade não foi apenas um êxito isolado. Representou o momento em que a Marvel deixou definitivamente de ser uma editora cujos heróis sobreviviam sobretudo na televisão para se transformar na força dominante do cinema comercial contemporâneo. Tudo o que aconteceu depois — dos Vingadores às bilheteiras bilionárias, das séries de streaming ao domínio da cultura popular mundial — começou com uma personagem que, até 1998, quase ninguém imaginava capaz de mudar a história de Hollywood.

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