A provocação que move Maggie Gyllenhaal ao pensar no futuro do seu The Bride! (A Noiva!), perante a expectativa do circuito por um novo blockbuster de terror, passa pelo existencialismo:
“Pode dizer-se que é uma história de amor, pode dizer-se que é uma história de fantasmas, mas o que mais me interessa é confrontar o público com uma pergunta: ousaria apertar a mão ao seu monstro interior? Cada um de nós tem uma fera dentro de si”, afirmou a atriz e realizadora nova-iorquina numa conferência online realizado na terça-feira, na véspera da estreia, no qual o C7nema participou. “Onde vivem as nossas monstruosidades vivem também virtudes.”
Filha do casal de cineastas Naomi Achs e Stephen Gyllenhaal, Maggie representa desde 1992, embora tenha dedicado parte da década de 1990 e o início dos anos 2000 a estudar Letras na Columbia University, onde cometeu um único “crime” académico: não leu o romance mais célebre de Mary Wollstonecraft Shelley (1797–1851), autora de Frankenstein (1818).
“As personagens que Shelley criou fazem parte do imaginário popular, de tal forma que existe uma caracterização muito marcada. Quando pensei no visual do filme, a ideia central era que o traje da Noiva fosse icónico, pois ela passaria o filme inteiro com ele. A roupa iria aparecer suada, rasgada, suja de sangue. E há também as marcas no rosto”, explicou a realizadora, antes de passar a palavra à protagonista, Jessie Buckley.
“Vejo a tinta escura que A Noiva carrega no rosto como se fosse a tinta com que Shelley escreveu o seu romance”, disse Jessie. “Este filme nasceu durante o processo de Hamnet (2023), uma história de quietude, e aqui eu precisava de encontrar uma linha dramática para traduzir a protagonista como alguém que vive na borda de um vulcão em erupção.”*
Cinco anos após conquistar o prémio de Melhor Argumento no Festival de Veneza por The Lost Daughter (2021), Maggie decidiu mergulhar nas franjas do universo de Mary Shelley — transformando-a também em personagem, igualmente interpretada por Jessie — depois de ter visto o clássico do terror The Bride of Frankenstein (1935), de James Whale (1889–1957), no qual Elsa Lanchester (1902–1986) assume a figura que “deveria” ser o eixo da narrativa, ao lado do mais célebre Frankenstein do Cinema, Boris Karloff (1887–1969).
“A Noiva nesse grande filme quase não fala, o que evoca um processo de silenciamento da mulher no Cinema clássico. Por isso, queria que Shelley falasse através de mim. Para isso, era importante encontrar um tom novo, meu, para contar esta história, de modo a que não se ligasse a um género específico. Não podia ser um filme do Tim Burton. Os filmes dele são extraordinários, mas eu não podia cair em algo visualmente reconhecível. E, numa primeira fase, não imaginava que o elemento musical fosse entrar na narrativa como entrou”, confessa Maggie, que já contracenou no passado com o seu Frankenstein: Christian Bale interpretou Bruce Wayne quando ela participou em The Dark Knight (2008).
Na versão escrita por Maggie, Shelley comenta — de forma provocadora — a saga de Ida (Jessie), vítima do gangster Lupino (Zlatko Burić), que, após a morte, é ressuscitada pela cientista Euphronious (Annette Bening), a pedido de um visitante inesperado: a criatura de Frankenstein (Bale), que anseia por amor. Um detetive (Peter Sarsgaard, marido de Maggie) e a aspirante a agente Myrna Mallow (Penélope Cruz) cruzam-se com este casal, enquanto percorrem salas de Cinema à procura dos filmes de Ronnie Reed (Jake Gyllenhaal, irmão da realizadora). O uso dos nomes Ida e Lupino evoca a estrela e realizadora britânica naturalizada norte-americana Ida Lupino (1918–1995), figura central do faroeste televisivo dos anos 1950.
“Estamos a falar de sobrevivência”, afirma Maggie. “Pode fugir dos seus monstros ou pode enfrentá-los.”

