A Warner Bros. é um dos estúdios que hoje em dia já utiliza uma tecnologia baseada em inteligência artificial capaz de ler guiões, analisar centenas de parâmetros, comparar todos e prever – com cerca de 85% de êxito – o que vai ser um flop de bilheteira ou um sucesso. Consoante o resultado, o projeto tem luz verde ou não,

Já com mais de 108 milhões de dólares de receitas nos cinemas, para 78 milhões de custos, “Tom & Jerry” será minimamente rentável (faltam ainda somar custos de marketing, habitualmente 30-40% a + do custo de produção). Além do mais, o filme estreou em alguns territórios-chave simultaneamente na HBO MAX, contribuindo assim para um resultado global satisfatório em tempos de pandemia.

O contrato com a empresa que fornece tal tecnologia foi assinado em 2020, bem depois de começar a produção deste “Tom & Jerry”, filme que mistura animação e imagem real com resultados medíocres. Assim, não podemos dizer que “a culpa foi da máquina“, mas sim dos humanos decisores por trás dela.

A verdade é que mais que querer ser um filme ou até vender bilhetes, este projeto é principalmente o abrir de uma porta, um “revival” para alimentar uma máquina de merchandise pronta a invadir as prateleiras e conquistar uma nova geração de fãs, a maioria dos quais teve contacto com a dupla gato e rato mais famosa dos EUA (se deixarmos de fóra The Itchy & Scratchy Show de Os Simpsons, claramente inspirado nas animações criadas em 1940 por William Hanna e Joseph Barbera).

Com um trabalho de animação particularmente rico em limitações, como que preso entre imagens clássicas do duo e as exigidas para os dias que correm, “Tom & Jerry” segue a velha dinâmica do gato a perseguir constantemente o rato, sendo agora um hotel de luxo o campo de batalha para inúmeras peripécias.

Chloe Moretz é a protagonista humana, uma jovem que começa a trabalhar no hotel enganando os donos e que tem como principal missão fazer desaparecer o rato. Tom é contratado para a ajudar e a partir daí as situações de caos são tão frequentes como a ausência de humor, entregue ao mais banal slapstick  e a piadas contemporâneas regadas a temas de influencers e amor pastelão.

Claro está que provavelmente pensam que sou apenas alguém velho demais para analisar algo construído a 100% para as crianças, mas a verdade é que duvido seriamente que os miúdos estejam interessados nestes nomes fortes de outras eras, que na verdade dizem muito é aos seus pais e avós. Quando encontramos uma história com a qualidade de qualquer produto de 2ª linha televisiva (os stremears aumentaram a fasquia), a necessidade de um novo “Tom & Jerry” é tão reduzida que a sua existência no grande ecrã deve ser colocada em causa.

Pode ser que me engane (não tenho a capacidade da máquina descrita acima), mas precisávamos tanto de “Tom & Jerry” como novamente dos Flintstones. Na verdade, este filme do gato e rato é o exemplo claro que os grandes estúdios não dão o que o público quer, mas o que querem vender. E “Tom & Jerry” conseguiu vender como qualquer filme em destaque na primeira página de um streamer e quase sem concorrência nas salas de cinema, mesmo sendo muito pobre em todas as suas dimensões criativas e técnicas.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
tom-jerry-o-regresso-aos-cinemas-que-ninguem-pediuMuito pobre em todas as suas dimensões criativas e técnicas.