Talvez umas das piores coisas deste “The Mitchells vs. the Machines” seja o seu título pouco atraente, mas ele define sucintamente toda a ação vivida nesta nova aventura animada da Netflix.

Os Mitchells são uma família imperfeita, especialmente no relacionamento intergeracional da filha com o pai castrador, que ainda a trata a miúda como a criança que viu crescer, super protegendo-a contra a sua vontade. Quando a jovem prepara-se para ir para a faculdade noutro estado dos EUA, o pai tem a “brilhante” ideia de cancelar a sua passagem aérea, decidindo passar os últimos dias dessa conexão numa road trip familiar a caminho da universidade da filha. Os planos acabam por ser confrontados com uma invasão de robôs, cujo intuito é escravizar a humanidade numa revolta liderada por uma assistente virtual chamada PAL (voz de Olivia Colman)

Misturando animação 2D e 3D, onde não faltam apontamentos e comentários saltintantes que invadem o ecrã em várias sequências que acompanham a ação, Mike Rianda (que coescreveu o argumento com Jeff Lowe) com a produção de  Phil Lord e Chris Miller entregam-nos um projeto hiperbólico em todos os seus múltiplos sentidos sobre a relação dos homens com a tecnologia, a falta de regulação no mercado da Inteligência Artificial, e a difícil perceção de um homem em aceitar que a filha cresceu e está preparada para uma vida fora do ninho.

E é também hiperbólico nas emoções, extremamente melosas e derradeiramente manipuladoras; no seu pavor pelo consumo e dependência tecnológica; na apresentação de um humor slapstick; e em situações fora da caixa, que só mesmo os adultos vão entender. Há também um cariz meta que faz lembrar o melhor que “O Filme Lego” tinha e uma pitada de referências cinematográficas onde não falta mesmo Kill Bill.

O resultado final é uma salganhada total que, curiosamente – com exceção na exploração dos sentimentos entre pai e filha, efetivamente “too much” -, sente-se coerente dentro de um registo em que o entretenimento é o objetivo central, mas que não esquece a reflexão em alguns pontos essenciais da relação homens máquinas e na conceção de família, afastando-a da perfeição. Todos os membros da família têm falhas, não fazem bem a ideia do que fazem constantemente, e detestam a perfeição alheia, personificada nos vizinhos do lado que seguem sempre o seu pensamento como um todo.

Mas toda essa imperfeição dá a “The Mitchells vs. the Machines” autenticidade, permitindo ao espectador uma identificação clara e direta com cada uma das personagens. E isso é algo importante, essa criação de empatia, especialmente num filme que vive constantemente dos exageros e das caricaturas em todos os seus pontos de ordem.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
the-mitchells-vs-the-machines-bem-vindos-ao-apocalipseProjeto hiperbólico em todos os seus múltiplos sentidos sobre a relação dos homens com a tecnologia e a imperfeição familiar