Há todo um processo de encantamento, encapsulado numa história de obsessão e decepção, em “O Discípulo“- Prémio da Crítica em Veneza, vencedor do LEFFEST, e o novo “conteúdo” da Netflix, estreado na passada sexta-feira.

Assinado pela promessa – transformada em confirmação – Chaitanya Tamhane, o filme mantém uma certa distância na sua observação tal qual o seu “Court” de 2014 o fazia, mas agora assenta o seu estudo a um único indivíduo que dedicou parte da sua vida à devoção ao seu guru que o introduziu ao Raag,  a música clássica da Índia, Bangladesh e Paquistão, que é também uma jornada espiritual, um caminho para o divino.

Sharad Nerulkar (Aditya Modak) é o centro de tudo, o qual desde muito novo ouvia o pai falar da lendária Maai, uma cantora “mística” idealista que recusava atuar perante multidões, e não permitia que sua música fosse gravada ou usada para ganhar dinheiro. O único caminho para essa busca eterna, para o Raag, era os pretendentes aprenderem a estarem “sozinhos e com fome“, com a “mente pura e imaculada“, libertando qualquer “falsidade e impureza” dela. E não é para todos essa demanda, que exige capacidade, disciplina e fé, cabendo a uns poucos, uma seleta minoria de santos e ascetas, essa conquista.

Sharad moveu a sua vida nessa busca, como que acreditando ser de uma linhagem sagrada, mas estas palavras ecoadas das palestras que ouve incessantemente de Maai vão esbarrar no muro do real, quando um homem, conhecido como o ladrão de música, que travou conhecimento com o “mito” de Maai, nega todo esse cenário idílico, acusando-a mesmo de ser um ser humano execrável, capaz de fazer palestras “pretensiosas, hipócritas e elitistas”. E diz-nos isso numa das cenas mais marcantes do filme, anunciando todo o ruir de uma ilusão.

A verdade é que já é tarde demais para voltar atrás nessa busca eterna e, apesar da jornada sagrada para o terreno de santos e ascetas sofrer um revés, como que reivindicando uma identidade, uma história e também uma obsessão, ele – e a nova Índia – prosseguem ligados à rota espiritual, mas agora já não “sozinho e com fome“, mas acompanhado de mulher, filha, público e um negócio destinado a propagar essas tradições e legado.

O Discípulo” é um bom filme cujo grau de hipnotismo e meditação exigia preferencialmente uma sala de cinema para o seu visionamento. O grau de imersão que o seu som, músicas e palestras de Maai conseguem evocar – conjugadas com as belas imagens de Sharad a vaguear de mota por uma Mumbai estranhamente deserta – são de uma beleza ímpar, um estando de ascese por si só.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
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