Por maior diversidade que o cinema de Hollywood tenha nos seus elencos e equipa, continua inabalável o facto dos russos, muitas vezes com agentes duplos norte-americanos pelo meio, continuarem a ser fielmente os vilões. E esse não é um problema “americano”, pois Christopher Nolan fez exactamente o mesmo em “Tenet”.
Esta tendência e estereótipo, já com raízes históricas no cinema americano, e que ganhou novamente fulgor com a alegada interferência do russos nas eleições norte-americanas que conduziram Trump ao poder, tem um sentido maior na obra literária de Tom Clancy, escritor e historiador americano famoso por peças detalhadas em torno de espionagem e ações militares durante e depois da Guerra Fria. Basta lembrar “Caça ao Outubro Vermelho“, os livros centrados na personagem de Jack Ryan, e agora neste spin-off, “Without Remorse” (Sem Remorso).
Assinado pelo italiano Stefano Sollima, realizador do soberbo “A.C.A.B” e dos eficientes “Suburra” e “Sicario:Soldado”, “Without Remorse” é muito mais acção que tensão, iludindo-nos num espectáculo liderado por milhares de balas gastas e sequências de Gun-Fu que se querem energéticas. As emoções estão também à flor da pele, com John Kelly (Michael B. Jordan) como um militar que, depois de uma ação na Síria pouco clara, vê a sua família ser assassinada, partindo depois para a vingança.
Infelizmente, tudo é excessivamente mecânico e previsível nesta nova incursão do universo Jack Ryan, especialmente na criação do (falso) vilão e a reviravolta que se segue. Habituado a obras frenéticas onde predomina o nervosismo de um alguém contra o mundo, Sollima entrega sequências capazes de encher o olho, mas essencialmente já vistas e até modestas.
Existe uma tendência do mais recente cinema em streaming repetir os velhos pecados de Hollywood, mesmo que os talentos na interpretação consigam dar um bocadinho mais que o guião oferece. Nesse aspeto, tanto Michael B. Jordon como Jamie Bell e Guy Pierce cumprem um tridente de atuações acertadas, não salvando o filme, mas também não o deixando afogar no completo marasmo.
É que o problema está mesmo no sentimento de dèjá vu permanente das histórias, personagens e interações, que parece ter tendência a aumentar no pequeno ecrã, pois com a explosão de vários projetos internacionais nestas plataformas, mostram-se novas caras e novas vozes (em vários idiomas), mas o velhinho cinema de acção rotineiro, cheio de lugares comuns, está de volta e só serve mesmo para comer pipocas ou aterrar no sofá ao domingo à tarde e relaxar.















