Quando uma autarquia decide criar um recolher obrigatório especificamente orientado para as mulheres na Cidade Juárez, México, para travar uma onda de feminicídio, qualquer intenção nobre de proteção e segurança deve passar para uma discussão intensa sobre a génese dessa decisão e da condição da mulher.

A realizadora venezuelana Paola Calvo, já com passagens na Berlinale, no Forum Expanded, em 2012, juntamente com Patrick Jasim (também diretor de fotografia), aplica um verdadeiro “Atomic Drop” sobre o tema neste seu “Luchadoras”, documentário exibido na secção Global do SXSW Online 2021, que acompanha de perto a luta diária de um conjunto de mulheres que vive em Juárez, e que constantemente tem de passar por episódios de violência machista (em casa, nos transportes, nas ruas) sob as luzes de uma cultura do patriarcado, onde o tráfico de drogas e de seres humanos faz parte do dia a dia.

A referência a “Lutadoras” no título deriva do facto destas mulheres fazerem uma vida quotidiana na famosa forma desportiva de entretenimento que melhor conhecemos como Wrestling, mas que de forma notória é conhecida no México como Lucha Libre. Mas as lutas dessas mulheres – que na Lucha Libre adquirem os nomes de Lady Candy, Mini Serinita, Little Star e Baby Star – não se restringem ao ringue, onde vestes verdadeiras personagens, heroínas ou vilãs, e são diárias, como uma mulher que vemos por aqui que trabalha numa funerária de dia veste a sua máscara e personagem para os combates de Lucha Libre à noite, enquanto procura reaver o contacto com os filhos após sair de uma relação marcada pela violência. E tudo num sistema quotidiano que a menospreza, burocrata em procedimentos, e que transforma as mulheres em alvos fáceis e cidadãos de segunda. Mulheres que não aceitam mais ser vítimas, que querem justiça para as Muertas de Juárez (As Mulheres Mortas de Juárez) e celebrar as Vivas De Juárez (As Mulheres Vivas de Juárez). Mulheres que vão para a rua gritar basta e que estão fartas de ser submetidas às diretrizes alheias.

Estudante da Academia Alemã de Cinema e Televisão em Berlim e também a operar como Diretora de Fotografia em inúmeros trabalhos cinematográficos, Paola Calvo e Patrick Jasim entram entra por este mundo de violência a dentro produzindo uma obra mais afastada dos padrões do documentário jornalístico e bem mais próxima do documento íntimo e pessoal, conseguindo no final abordar uma série de problemas individuais de forma coletiva, com a militância exigida sempre regida por um forte trabalho de contextualização. No final, “Luchadoras” são todas mulheres de Juárez, do México e um pouco por todo o mundo.

Um belo e muitas vezes doloroso documentário, onde derradeiramente é transmitido um sentido de resiliência total num ambiente delicado, frágil e permanentemente perigoso.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
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