Em mais um dos desafios complexos, típicos de Estados Africanos pós-coloniais, a República CentroAfricana tem estado em destaque pelos piores motivos neste novo milénio por constantes problemas e tensões políticas e religiosas na luta pelo poder, com especial realce para o surgimento da coalizão Seleka, de orientação religiosa muçulmana (enquanto que a população do país é maioritariamente cristã: 80%), que reunia diferentes facções políticas e milícias hostis ao governo do então presidente – constantemente acusado de despotismo- François Bozizé.

Em 2013, essa coalizão, oficialmente denominada Seleka CPSK-CPJP-UFDR, tomou o poder num Golpe de Estado em 2013. O resultado foi uma violenta matança, registado fotograficamente até à sua morte pela repórter de imagem francesa Camille Lepage, que andava em trabalho juntamente com as milícias cristãs anti-balaka ( “anti-machete” ou “anti-espada”, nas línguas locais sango e mandja).

O trabalho da fotojornalista no território é o foco desta obra cinematográfica assinada por Boris Lojkine, viajando-se à sua inexperiência em conflitos, mas também exibindo o seu enorme idealismo e perseverança em levar a matança aos olhos ocidentais. Nunca sendo verdadeiramente didático sobre o conflito, talvez por existir a consciência que acima de tudo se dirige a um público francês mais habituado a ver o país nos telejornais por ser uma antiga colónia, o espectador pode se sentir perdido e reduzir todo o conflito a questões religiosas, mas há muito mais. Mas de câmara na mão, o cineasta embarca numa jornada pelo mato – espécie de road-movie de guerra – olhando para o drama e violência no conflito, num jogo entre milícias e políticos que em geral martiriza toda uma população. “Os homens fazem a guerra, as mulheres sofrem com ela”, diz uma habitante de um dos pequenos vilarejos afetados pelo combate, mostrando também a incapacidade do jornalismo em atuar convenientemente quando existe um interesse reduzido do público europeu, que apenas olha para ele como mais um conflito africano.

Ainda assim, Boris Lojkine consegue nos limites olhar para a guerra e para as suas vítimas, trazidas para o conflito por opção, ora como danos colaterais. Há também uma menção ao papel do jornalista como entidade que regista uma situação tensa, o que pode gerar algum show off dos objetos fotografados em ser ouvidos através da morte como um espétaculo que desperta massas. Este tema – bastante interessante – vem ao de cima, mas não é aprofundado, soando tudo derradeiramente um filme homenagem, sempre entrecortado com as fotos mais conhecidas de Lepage.

Fica assim muito por dizer, mas também compreende-se que especular na criação de ficção sobre alguém que efetivamente se sabia pouco do que fez no território (todos os que sabiam mais foram assassinados com ela) seria sempre complicado e podia gerar falsos registos históricos sobre a sua vida, morte e conflito em causa.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
camille-biopic-sobre-camille-lepage-leva-nos-ao-terror-do-conflito-centro-africanoBoris Lojkine consegue nos limites fazer o panorama do conflito centro-africano e mostrar o trabalho da fotojornalista Camille Lepage