“O Ano da Morte de Ricardo Reis”, adaptação cinematográfica do romance homónimo de José Saramago, realizado por João Botelho, conta no elenco principal com o ator brasileiro Chico Diaz (no papel de Ricardo Reis), Luís Lima Barreto (Fernando Pessoa) e com as atrizes Victoria Guerra e Catarina Wallenstein, entre outros. A ação passa-se em Lisboa, em 1936, quando o médico Ricardo Reis regressa a Portugal depois de se ‘auto-exilar’ no Brasil por mais de uma década.
Aproveitando o facto de Pessoa nunca ter atribuído uma data de óbito para Ricardo Reis, José Saramago proporciona-nos, através da literatura, o encontro do defunto Fernando Pessoa com este heterónimo, num periodo de grande agitação social e política, nesse ano de 1936, ano marcado pelo fascismo de Mussolini, pelo Nazismo de Hitler, pelo caminhar da guerra civil espanhola e pelo Estado Novo de Salazar.
Para João Botelho, a obra de Saramago “denota-se muito atual e ganha uma nova urgência com o regresso do atual populismo”, e enquadra-se na tendência do cinema do realizador nos últimos anos, vincada pela adaptação cinematográfica de grandes obras da literatura portuguesa.
Neste filme que nos convida a apreciar a poesia e a contemplação permanente, que resulta da imaginação do sensível presente, quer nos monólogos de Ricardo Reis, quer nos seus diálogos com o defunto Fernando Pessoa, acompanhamos a agonia de um tempo onde ascendem populismos e totalitarismos, onde a ficção conhece a realidade e onde a inteligência e a vontade se tornam forças disruptivas. É nesta disrupção que também figuram as personagens femininas do romance, Marcenda (Vitória Guerra) e Lídia (Catarina Wallestein), as paixões platónicas, carnais e impossíveis de Ricardo Reis.
Fazendo uso da lírica “o poeta é um fingidor”, é no confronto entre a realidade amorosa que o heterónimo Ricardo Reis descreve na sua poesia e na que vive efectivamente, que vamos também encontrar o dilema da intelectualização das emoções, ponto com que a personagem se debate e que acompanhamos no seu discorrer de pensamentos e divagações mentais, enquanto deambula geograficamente pela cidade de Lisboa, desde a Rua do Alecrim ao Alto de Santa Catarina.
Numa perfeita filmologia de sensações, João Botelho consegue dar-nos mais do uma mera adaptação de uma grande obra da literatura. O que é notável, é a forma como o realizador consegue fazer da simbologia de Saramago a sua própria simbologia no filme, com pequenos gestos, olhares, planos íntimos e próximos, que nos contam memórias, pensamentos, segredos de uma forma tão visualmente poética e transcendente ao texto ou ao diálogo.
Nesta obra que nos dá de alguma forma uma conciliação entre a arte e a vida (ou o final dela), o jogo de sombras e de luz, o preto e o branco, o dilúvio e a guerra, tornam-se as cores que dão vida às emoções das personagens, ao próprio modo como vivem a situação externa, mas também o que vai dentro de cada um.
A adaptação cinematográfica de João Botelho, inclusivamente, acompanha o ritmo da obra literária. As pausas, os silêncios, os momentos de agitação física e os de confusão mental, todos eles fazem jus à obra de José Saramago, acompanhando inclusivamente a ironia do próprio autor, em particular na crítica à fé cristã como cura para todos os males, tal como se pregava naquela época, que se regia pelo lema “Deus, Pátria e Família”.
Também de notar a belíssima música por Daniel Bernardes, que nos consegue conduzir por esse ritmo e transportar-nos para o enredo de forma bastante subtil. Aqui se entrelaçam a lembrança e a esperança, a realidade e a ficção e as contradições humanas e fantasmagóricas de seres duplos e unos ao mesmo tempo, de tempos passados e dos que ainda estão por vir.
“O Ano da Morte de Ricardo Reis” é uma obra única e magnífica de José Saramago, mas se existiria uma outra forma de contar este romance, igualmente única e magnífica, foi João Botelho que a desvendou.















