Com alguns elementos de terror (recorrências ao “gore” e algumas ambientações), a cineasta polaca Malgorzata Szumowska (de “Mug – A Face” e “Elas”) conduz de forma contemplativa uma reflexão sobre a natureza da dominação – particularmente a de cunho religioso.

O Pastor (Michiel Huisman) vive numa floresta com o seu “rebanho”. Esse é constituído por mulheres adultas, adolescentes e duas crianças, todas do sexo feminino. O discurso dele tem uma entoação religiosa, combinada com um conjunto ritualizado de ações, todos vagos e sem ser identificados com qualquer doutrina em particular. Aparentemente a palavra chega para lhe garantir a liderança, que tem um cariz de “família” poligámica: os grupos de mulheres chamadas de “esposa” o satisfazem regularmente, algumas das quais tornando-se mães. As mais novas aguardam a chegada da vida adulta (na forma da menstruação) para ter a honra de poder servi-lo. É o caso da protagonista, Selah (Raffey Cassidy).

Apesar de pontuar de forma explícita que a violência física é um elemento recorrente do exercício do poder por parte do Pastor, também há a indicação de que as mulheres podem ir embora se o quiserem (diferente das seitas muitas vezes descritas no cinema, onde os líderes  têm um caráter aterrador e vigilante) mas, por diferentes razões, acabam por ficar. No caso mais exemplar, a da ex-esposa proscrita que é obrigada a manter-se afastada das outras (Denise Gough), sugere-se que ela “perdeu a sua identidade” e parece incapaz de se reconhecer fora daquela existência coletiva.

As referências ao tempo e ao espaço são parcas, mas indicativas o suficiente para dar à história um caráter realista: num momento, o único onde a ação se passa fora do âmbito da comunidade, vê-se a bandeira dos Estados Unidos no vidro de um veículo. Mais importante, a um tempo um carro da polícia chegal ao local e o pastor é informado que tem que abandoná-lo. A chegada do agente despoleta o início de um longo périplo pelas montanhas em busca de uma nova casa – e à medida que a procissão avança a autoridade do Pastor começa a desmoronar.

O tema é dos mais sugestivos: até a sua erosão no mundo ocidental com o avanço da ciência, a religião foi a forma por excelência de dominação através dos tempos e, sobre as mulheres, essa influência foi esmagadora. Não que Szumowska parta daqui para um abordagem particularmente visceral ou discursiva sobre o assunto, preferindo antes um estilo marcado por um número considerável de elipses e cortes contínuos no fluxo narrativo, o uso de recursos semióticos (a utilização das cores no figurino para significar diferentes níveis de “pureza”) e composições pictóricas de efeito plástico. Termina por sugerir a possibilidade de uma leitura “herética” para uma das cenas cruciais: o próprio Cristo, a figura central do cristianismo, teria de ser assassinado para inspirar o início à uma nova ordem – certamente não patriarcal.

Pontuação Geral
Roni Nunes
Jorge Pereira
the-other-lamb-a-heresia-da-religiao-patriarcalAbordagem contemplativa sobre a natureza da dominação religiosa, insinuando uma crítica à natureza patriarcal da religião.