Desde sua criação, em 1979, a Pixar concorreu a 772 prémios, embolsou 381, dos quais 16 são Oscars, incluindo o de melhor longa-metragem de animação de 2020, dado a “Toy Story 4“, na coroação de uma trajetória que já levou a produtora, irmã da Disney, a abrir o Festival de Cannes, em 2009, com “Up“.
Esta sexta-feira, “Bora Lá” (“Onward” no original/ “Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica” no brasil), um primoroso exercício das cartilhas da aventura capa & espada, veio representar a casa de Buzz Lightyear em solo alemão, na 70ª Berlinale, sendo ovacionado – com méritos inegáveis – no fim da sua projeção para a imprensa. A escolha de uma produção animada infantojuvenil, calcada na tradição do RPG (o role-playing game, ou jogos de personificação) dos anos 1970, 80 e 1990, assinala com a tinta do pop o empenho do Festival de Berlim, agora sob nova gestão (Mariette Rissenbeek e Carlo Chatrian), de reestabelecer laços com as produções XL da indústria. O afastamento desse tipo de narrativa, mais aberto ao diálogo com grandes plateias, chamuscou a importância da maratona cinéfila germânica nos últimos cinco anos, quando ela amargou uma perda de prestígio e de importância estratégica em relação a Cannes e a Veneza.
Em 2018, a vitória de “Touch me not“, da romena Adina Pintilie, gerou comoção por se tratar de uma experiência narrativa mais próximo das artes visuais, das galerias de arte, do que de circuitos exibidores. No ano passado, a escassez de grandes autores-realizadores dos EUA e mesmo da Europa também arranhou o valor do Urso de Ouro. Agora, com a saída do antigo gestor, Dieter Kosslick – que teve um irretocável papel na busca de narrativas da Ásia, África e mesmo da América Latina -, a Berlinale quer provar uma vez mais do doce sabor dos holofotes populares. Em 2017, houve um gostinho que ficou no ar quando Hugh Jackman e James Mangold passaram pela cidade com (o seminal) “Logan“. Mas aquele “toque Marvel” não foi além. Agora, já que a ideia é rapaginar as feições do evento, nada mais justo do que a Disney entrar em cena, com o melhor de si: o cinema animado, aqui representado por uma saga de amor fraterno, conduzida por Dan Scanlon, com toques autobiográficos. Ele vem de “Monstros: A Universidade” (2013) para recuperar a linhagem RPG dos jogos de tabuleiro e de dados, nos quais os participantes interpretam criaturas de mundos diversos.
Scanlon contou com dois atores associados aos dois últimos tomos da franquia “Vingadores” no seu elenco de vozes: Tom Holland (o atual Peter Parker, aka Homem-Aranha) e Chris Pratt (o Senhor das Estrelas, ou Starlord, de Guardiões da Galáxia). Holland dá a voz ao franzino Ian, que cresceu sem conhecer o pai, morto quando ele ainda era um bebé. Barleu (Pratt) é um grunge deslocado no tempo que conviveu com o seu pai muito pouco. Os dois sentem falta dele, mas vivem cercados de acomodação numa dimensão mágica na qual criaturas como fadas, trolls e o povo elfo prefere lâmpadas elétricas e autocarros cheios a apelar para feitiços de voo ou de evocação de bolas de fogo. Mas o surgimento de um cajado capaz de devolver os mortos à vida vai mobilizar estes manos radicalmente diferentes, que roncam os motores de Guinevere para singrar nas estradas. A mãe deles (voz de Julia Louis-Dreyfus) fará de tudo para encontrar os seus rebentos antes que eles se metam numa maldição ligada ao poder do cetro enfeitiçado. E ela vai arrastar a dona de um bar, Manticore (numa hilária atuação de Octavia Spencer), pelo caminho.
Situações hilariantes, com piadas pautadas pela inclusão, arejam um filme que toma litros de adrenalina para narrar o périplo de dois jovens em encontrar o aconchego do amor paterno. As cores aquecem a narrativa conforme o amor entre os dois irmãos vai aparando as farpas, sem incorrer em caricaturas de Harry Potter na utilização da magia. Temos uma reflexão sobre valores ancestrais (e naturais) que ficaram para trás, em nome das guloseimas da tecnologia.
Mas, como o amor só usa uma armadura, a da dor (sobretudo da perda), as carapaças digitais caem sob o castigo do querer, da consciência pesada, do abraço apertado.















