É de uma energia fervilhante e contagiante esta primeira longa-metragem de Ladj Ly, o qual, 25 anos depois de O Ódio, nos leva novamente aos subúrbios parisienses para nos mostrar de forma crua o barril de pólvora que não só subsiste como se apresenta mais instável que nunca.

E desenganem-se aqueles que esperam ser atingidos por um murro no estômago marcado a negro como o que Kassovitz lançou nos anos 90, pois Ladj Ly, vindo do registo do documentário, ou antes, das filmagens “do real”, domina e afronta de forma prioritária uma narrativa que em forma de thriller desconstrói as linhas de poder e a trêmula relação entre os “miseráveis” dos nossos tempos, todos afastados do encaixe binário (bom vs mau) que a catalogação social lhes reserva.

Montfermeil (Seine Saint-Denis), onde reside o cineasta, serve como um verdadeiro campo regado a fogo grego para esta história, mas antes disso somos presenteados com uma celebração global em plena Avenida dos Campos Elísios – onde as cores tricolores camuflam por instantes as desigualdades numa sociedade mais fraturada que nunca. França é campeã do mundo e, num jeito de histeria coletiva, a igualdade, fraternidade e solidariedade que a revolução francesa proclamou é vivida em uníssono.

Mas olhem mais de perto, parece Ladj Ly berrar, entrando pelo terreno suburbano adentro através de três policias que terão de solucionar um roubo que colocou duas facções de Montfermeil em conflito. Mas serão só duas as facções? Nem por isso, e o território aqui não é apenas físico, mas igualmente espiritual, sendo o espectador apresentado também aos “evangelistas” dos nossos tempos, também eles cimentados numa ténue relação com a outras faces da mesma “miserável” moeda.

Nisto Ladj Ly condensa poderosamente em menos de duas horas uma verdadeira tragédia social que se forma há décadas, uma lástima que saiu recentemente dos subúrbios e que se reivindica também no interior gaulês, uma catástrofe consumada que encontrou agora nos coletes amarelos uma nova vaga. E juntamente a uma mensagem vincadamente política e social, sem nunca entrar em terreno da manipulação ou preconceito, Ly oferece um espetáculo visual intenso, de domínio da câmara, onde planos abertos, fechados, de câmara na mão ou num drone nunca nos dispersam da intensa claustrofobia social que existe nas fronteiras invisíveis de um território tão concreto como abstrato.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
Hugo Gomes
les-miserables-filme-pulsar-sociedade-fraturada-parisCom um enorme domínio da narrativa e da câmara, Ladj Ly entrega um dos filmes mais inflamáveis do ano.