“Não se brinca com coisas sérias“, lá diz o ditado, mas esta coisa do cinema parodiar ou brincar com o nazismo têm já largas décadas, com Charlie Chaplin a ser O Grande Ditador (1940) em plena 2ª Guerra Mundial, Mel Brooks a colocar Hitler no Gelo em A História do Mundo – Parte I (1982), ou Roberto Benigni a brincar com o seu estado de prisioneiro num campo de concentração em A Vida é Bela, para aligeirar o peso dramático da situação ao filho.
Há sete anos, uma produção polaca – Ambassada – colocava os residentes de um prédio a viajarem numa máquina do tempo ao período da invasão do país pelos nazis, e três anos depois, uma produção alemã que a Netflix comprou a todo o vapor – Look Who’s Back – trazia Hitler aos nossos tempos em modo de figura pop.
O que Taika Waikiki faz neste Jojo Rabbit não é muito diferente do que fez em Hunt for the Wilderpeople, um enredo travesso para contar mais uma história pessoal de amadurecimento juvenil, mas desta vez usando os tempos nazis como base para o crescimento pessoal de um jovem “hitleriano” depois de travar conhecimento com uma judia que se esconde nas paredes da sua casa.
A dinâmica aqui não é muito diferente do filme português recente Tristeza e Alegria na Vida das Girafas, sendo a história contada através da utilização espalhafatosa de um amigo imaginário (algo tão maravilhoso em Calvin & Hobbes), que neste caso é uma versão histérica de Hitler para o jovem rapaz, e no filme português era um urso de peluche desbocado chamado Judy Garland. Curiosamente, ambos os filmes tratavam temas sérios através com doses de sátira e exagero quantificáveis, mas se nós lidamos com a austeridade e todos os problemas económicos pessoais e sociais associados, o pequeno Jojo (Roman Griffin Davis é extraordinário) tem o Terceiro Reich à sua volta.

Waitiki é um realizador dinâmico e doseia o seu filme com pitadas de arrojo e uma boa dose sentimental capaz de atingir várias gerações, navegando entre a comédia, o drama e até o romance com mais ou menos subtileza, até porque já percebemos na sua cinematografia (até em Thor: Ragnarok se notou) tem “sangue na guelra” e não é amigo de grandes convenções para massas. Aliás, atrevo-me mesmo a dizer que o neo-zelandês é dos poucos em Hollywood que se afoita constantemente em terrenos movediços, havendo nele um sentido de “puto xarila” que berra e se comporta de forma imprevisível quando não deve, um pouco como Gabriel Abrantes faz em todo o seu cinema.
E quanto à questão de não se “brincar com coisas sérias“, encerro o texto com uma frase de Ricardo Araújo Pereira, numa entrevista em 2016: “Só se brinca com coisas sérias, caso contrário não vale a brincar”.















