Já sem Michael Bay na cadeira de realizador e passados 17 anos desde a última sequela – parece que não, mas Bad Boys 2 estreou mesmo em 2003 – esta nova versão da franquia que reúne Will Smith e Martin Lawrence a desempenharem o papel de dois polícias da divisão de narcóticos da polícia de Miami, aparece nas salas de hoje como um filme fora de tempo. Não deixa de ser verdade que as aventuras de Mike Lowery e Marcus Burnett se entranharam na memória coletiva, e mesmo sendo um abuso afirmar que fazem parte do imaginário colectivo, é apesar de tudo assinalável que esse resquício de permanência teime em não desaparecer – um pouco como uma nódoa no melhor fato Tom Ford dirão os mais céticos, mas ainda assim…
Produto de uma outra era, não é por isso que deixa de ser um exemplo gritante da nova dinâmica que entretanto se instalou, a uma velocidade cada vez mais acelerada, sempre a desnorte. Herdeiro (ou será antes vitima?) dos tentáculos do Marvel Cinematic Universe e da lógica de conteúdo inesgotável da Netflix, Bad Boys – Para Sempre entra em cena como um velho cavalo a querer aprender novos truques. Mas, enfim, parece que o azar bateu à porta: não aprendeu grande coisa, e é um regresso muito literalmente telenovelesco, exímio na arte de fazer bom dinheiro sem ter muito a dizer. Mas não terá sido sempre assim?
É claro que sim, e quem for repescar os filmes anteriores não demorará muito tempo a chocar com esse lado mais caricatural do enredo. Nunca deixou de ter a sua piada, mesmo quando se tratava da gargalhada mais parva e forçada. E assistir à forma como Adil El Arbi, Bilall Fallah, a dupla de realizadores, joga como uma iconografia já batida tem o seu prazer: não há como negar, e digo-o sem ironia ou provocação, mas há aqui qualquer coisa de interesse cinéfilo nesse mastigar de poses, tiques e imagens de outros tempos.
Acontece é que, chegados ao terceiro filme, aquilo com que deparamos é uma história com ares de anedota contada pelo Harmony Korine: acabadinha de fugir da prisão graças à intervenção estratégica do gangue de serviço, a grande vilã da narrativa é uma bruxa que em tempos teve um caso com Mike Lowery. E quer vigança, e não descansa enquanto não levar a sua avante, acabando por colocar os planos de reforma da dupla em águas de bacalhau. Contado ninguém acredita, mas aqui estamos nós: é ver para crer.
Depois do mote dado pelo nova versão de Cats, apetece dizer que 2020 continua sobre o grande signo do ácido.
















