O regresso conturbado de Woody Allen às salas de cinema

Habituado a abrir ou encerrar festivais e presente constantemente nos certames de topo com as suas obras, Woody Allen vê agora o seu Um Dia de Chuva em Nova Iorque a ser lançado pela porta do cavalo, isto depois de um enorme imbróglio com a Amazon, que financiou o projeto, mas tentou livrar-se dele a todo o custo quando ressurgiram as acusações com mais de 25 anos contra o autor sobre um alegado abuso sexual em relação a Dylan Farrow, a filha de Mia Farrow. Isento de culpas, segundo o que a justiça norte-americana apurou em duas investigações feitas ao caso no passado, da fama de “abusador” Allen não se livrou e isso influiu muito na distribuição deste filme, que certamente não verá tão cedo a sua presença no mercado norte-americano.
Aparte deste caso, Um Dia de Chuva em Nova Iorque é um filme tão curioso como redundante na carreira do autor, aqui mais uma vez entre dilemas, origens e posições sociais. No centro da história temos um casal, ele (Timothée Chalamet a copiar um Allen mais novo) em modo bon vivant que estuda e ganha uns trocos no Poker, mas vive preso a uma família tradicional que o pressiona constantemente. Ela (soberba Elle Fanning), também de requintado pedigree social, é uma estudante do Arizona que escreve num jornal universitário e que tem uma importante entrevista com um realizador de culto (Liev Schreiber em modo Allen sombrio).
É ao longo de um dia chuvoso em Nova Iorque que a dupla se vai cruzar com inúmeras personagens (destaque para Selena Gomez), as quais cruzam-se no seu caminho e mudam todos os planos previamente combinados entre eles, colocando em causa o que cada um sente pelo outro, os seus objetivos na vida e até a imagem que têm sobre os familiares e o passado. É terreno seguro para Allen, que não só passeia paisagisticamente e ecoa musicalmente a Nova Iorque que tanto ama, como mostra personagens entregues a dilemas e neuroses que se vão entrelaçando com temas como o cinema, a fama, a infidelidade e, claro, o amor.

Como escritor, Allen polvilha o filme com pequenas preciosidades contemporâneas, enquanto visita os temas que aborda sistematicamente na sua carreira. Como realizador, sente-se algo igual a todos os seus filmes: uma direção ao serviço do guião e às particularidades das personagens, todas elas com o seu quê de Woody Allen no centro. Nisto, destaque-se o trabalho da melhor aquisição de Allen na última década, o diretor de fotografia Vittorio Storaro, e a capacidade de Allen em filmar Nova Iorque como uma personagem, também ela, por si só neurótica, ambígua e em permanente transformação.
No final, pondo em suspensão todo o caso em torno do lançamento do filme e as acusações ao cineasta, resta apenas e só um filme minimamente interessante, o suficiente para consolidar a sua carreira cinematográfica, mas insuficiente para a elevar para novos patamares artísticos.

Jorge Pereira

