«Maleficent: Mistress of Evil» (Maléfica: Mestre do Mal) por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Regresso de mais uma saga milionária da Disney que não acrescenta nada cinematograficamente e que meramente funciona como uma Guerra dos Tronos açucarada e pueril

Angelina Jolie entrega-se mais uma vez à sua Maléfica com engenho, sedução e carisma, mas esta história de príncipes, princesas e reinos em luta, que opõem homens e criaturas mágicas, perde-se a meio caminho de balelas bafientas que já vimos em tanto lado que tudo parece soar a um permanente dèjá vu. Pensem em X-Men, Avatar e, claro, Guerra dos Tronos, não fossem as sequências “aéreas” desta fantasia desinspirada quase uma cópia das lutas entre Cersei Lannister e Daenerys Targaryen.

E na posição de todas as personagens neste Maléfica 2 temos os mesmos dilemas e a converseta do costume. Se em X-Men a história de sobrevivência dos Mutantes encontra dois pólos – o pacifista Professor Xavier e o guerrilheiro de Magneto – aqui essa tarefa cabe a Chiwetel Ejiofor e Ed Skrein, uma espécie de Martin Luther King e Malcom X com diferentes perspetivas do que fazer a quem os persegue, neste caso, os humanos, que na verdade são apenas liderados por uma pessoa perigosa que centra todo o mal em si.

Isso também já acontecia em Guerra dos Tronos, com Daenerys meio enlouquecida a dizimar toda uma cidade e Tyrion Lannister e Jon Snow no mesmo lado da barricada a tentarem chamá-la à razão. O problema aqui é que – ao contrário dos exemplos citados – e a bem da equação “Disnesca”, não existe qualquer ambiguidade nas personagens (tirando Maléfica), cabendo a Michelle Pfeiffer o rótulo redutor de “velhaca” de serviço com toda a maldade conquistadora do reino dos homens em si e um profundo “medo” pelo desconhecido (“os estrangeiros”).

No meio de tudo, temos ainda a ingénua historieta de amor entre Aurora (Elle Fanning) e Philip (Harris Dickinson), de reinos diferentes, que embarcam na forma mais padronizada do conto romântico Romeu e Julieta, sempre sem uma ponta de surpresa, como aliás, todo um filme regido pela mais básicas das manipulações sentimentais. E nesta manipulação entra em cena a banda-sonora, opressiva, excessivamente melodramática (e derivativa) a tentar à força arrancar a lágrima perante o Amor, que – claro – triunfa sobre tudo e todos, e faz inimigos darem as mãos passados escassos minutos de um conflito físico.

É a fórmula Disney mais recente a funcionar: simplista, bacoca e sem qualquer ponta de realismo. Uma fórmula sem sensações duais verdadeiramente humanas (mortos e feridos são esquecidos num ápice, com exceção dos que se sacrificam em nome dos outros) e tudo é resolvido em segundos, sem qualquer problema. E claro, não falta ainda neste “show-off” visual uma enxurrada de criaturas mágicas “fofinhas”, as quais um dia podem gerar um filme ou séries sobre si e vender toneladas de merchandise nas lojas do grupo.

É certo que no meio disto tudo o realizador Joachim Rønning – de Kon Tiki – A Viagem Impossível – cumpre tecnicamente o pretendido, ou seja, entrega um espetáculo estéticamente decente. Porém, na verdade, as coisas são apenas recicladas a partir dos próprios filmes da empresa (em especial no filme anterior de Robert Stromberg). E o pior é que a Disney ainda acredita que existe frescura por aqui. Nada mais errado…


Jorge Pereira

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