«Velocidade Furiosa: Hobbs & Shaw» por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Velocidade Furiosa: Hobbs & Shaw é extremamente descompensado, genérico na ação mas conta com humor e carisma por parte dos seus protagonistas

Os problemas nas filmagens e direção da saga Velocidade Furiosa entre Dwayne “The Rock” Johnson e Vin Diesel, tal como a rentabilidade do antigo wrestler no cinema, levaram a saga a optar por criar um spin-off. Em tempos de universos partilhados e filmes serializados que conquistam o box-office, Velocidade Furiosa: Hobbs & Shaw era inevitável.

Não vou perder tempo em grandes explicações sobre a evolução da franquia iniciada por Rob Cohen em 2001, preferindo resumir tudo a um início como uma saga de corridas ilegais e polícias infiltrados que “piscava o olho” à cultura dos videojogos (corridas atrás de corridas, até à final como se fosse um último nível). A certo ponto, a saga perdeu gás e para a reavivar foi chamado Justin Lin que levou a franquia para o campo do verdadeiro heist movie. Depois? Depois veio a explosão sensacionalista no sétimo e oitavo capítulo, que como o meu colega Hugo Gomes bem escreveu, transformou Velocidade Furiosa num objeto extremo da espetacularidade do cinema de Hollywood com claras influências de Bollywood.

Há uns dias atrás, um dos escribas desta franquia especulava que a saga podia até ter um capítulo no espaço, desde que isso respeitasse os limites associados à suspensão da descrença e se mantivesse o “espírito”. A verdade é que depois dos dois últimos filmes, em que num temos carros a passear e desafiar as leis da Física entre torres em Abu Dhabi, ou “chaços” transformados com “boosts especiais” (com truques com anilhas de latas pelo meio) em corridas pelas ruas cubanas, tudo, mas praticamente tudo é possível nesta saga.

No meio disto tudo, se há elemento que se manteve sempre constante na franquia, embora depois da morte de Paul Walker tenha sido particularmente vincado, é o conceito de família, sempre pronunciado pelo nosso Dominic Toretto como o nirvana da existência. Esse chavão da franquia, a família, é transferido para este Velocidade Furiosa: Hobbs & Shaw em duas formas distintas: de um lado pela ligação familiar entre Shaw (Jason Statham) e a perseguida (Vanessa Kirby) por uma empresa de alta tecnologia cujo principal rosto sobrehumano é encarnado pelo britânico Idris Elba. Por outro, temos o regresso a casa do carismático Hobbs (Dwayne Johnson) onde terá de se reunificar com a família da qual há muitos anos está distante.

Passeando entre Londres, a Samoa e até Chernobyl, Velocidade Furiosa: Hobbs & Shaw nunca nos entrega nada de verdadeiramente novo, podendo a realização ser caracterizada num primeiro momento como uma descendente de Missão Impossivel (J.J Abrams e Christopher McQuarrie), onde não faltam perseguições de perder o fôlego no meio da cidade, e uma segunda fase com todos os tiques do cinema de Michael Bay, onde se copiam planos e planos, sequências e sequências, apenas com a diferença de que em pano de fundo não se vê a bandeira americana. E até a tímida forma de filmar os momentos eventualmente românticos é feita com o modelo Bay para adolescente acreditar.

Na verdade, o duplo transformado em cineasta – David Leitch – que brilhou no primeiro John Wick mas emperrou em Atomic Blond e Deadpool 2, aqui nunca consegue manter uma coerência técnica e criativa na construção do seu filme como um bloco, resultando numa salganhada de estilos e uma coleção de sketchs pobremente encaixados onde apenas o humor consegue verdadeiramente chegar com alguma luminância ao espectador.

E por falar em humor, claro que a embirração natural entre Hobbs and Shaw – que motiva anedotas sistemáticas em jeito stand up comedy– é uma mais valia na primeira fase do filme, mas torna-se repetitiva e redundante à medida que a ação avança, servindo então sim as duas (boas) surpresas no elenco que o filme nos reserva como os verdadeiros comic reliefs e elementos refrescantes no meio de sequências de ação pouco espetaculares e muito previsíveis no desfecho. A invasão de sentimentos primários repletos de momentos lamechas, novamente em torno do chavão família, entram a pé juntos no último terço da fita, a qual encerra entre o pastelão e o humor com base na repetição esquemática das piadas.

O resultado final é assim um filme extremamente descompensado, que a espaços vai sobrevivendo através do carisma inerente aos atores presentes (Idris Elba, no seu melhor), mas que nunca satisfaz completamente como uma massa cinematográfica harmoniosa, ou sequer eficaz no seu objetivo final: o entreter.


Jorge Pereira

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