«So Pretty» por André Gonçalves

Os perigos de uma adaptação, nomeadamente quando se trata de uma tradução de uma língua para outra, são expostos num ensaio metanarrativo, onde as personagens são também as personagens da obra a adaptar. 

So Pretty é assim, por sua vez, uma adaptação de So Schöde Ronald M. Schernikau, um romance alemão dos anos 80, e a sua originalidade na maneira como pega na ideia exposta no parágrafo anterior, sem qualquer recurso a storytelling, transforma esta obra numa experiência insular, outro caso para gerar, se não amor-ódio, respeito-indiferença. Infelizmente, encontro-me no segundo campo. 

A falta de estrutura e narrativa não seriam um total problema, se pelo menos houvesse um desenho de personagens minimamente interessante – e aqui talvez seja um problema pessoal, de estar já bastante habituado a representações queer para a queerness e a abertura relacional e dos corpos destas personagens não ser o suficiente para captar a atenção deste espectador. 

Claro que esta ideia de fluidez é precisamente o ponto aqui – eis o problema de traduzir do alemão uma palavra que possa significar casal ou união de grupo, na sequência que dá mote à existência do filme, por assim dizer. Estas quatro personagens principais vivem em conjunto numa comunidade e, apesar da formação de dois casais, é perceptível a tal fluidez de sentimentos, captados pela realizadora Jessie Jeffrey Dunn Rovinelli com câmara à mão em exteriores, ou permitindo, na melhor sequência do filme, conversas paralelas que se cruzam a certo ponto, refletindo a liberdade amorosa do grupo. So Pretty sai-se então com um ensaio demasiado teórico para o seu próprio bem, ao mesmo tempo que assume uma intimidade do espectador com a obra de origem que este escritor assume não existir – e daí também a maior insularidade desta experiência.  

 
 André Gonçalves

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