
Os perigos de uma adaptação, nomeadamente quando se trata de uma tradução de uma língua para outra, são expostos num ensaio metanarrativo, onde as personagens são também as personagens da obra a adaptar.
So Pretty é assim, por sua vez, uma adaptação de So Schön de Ronald M. Schernikau, um romance alemão dos anos 80, e a sua originalidade na maneira como pega na ideia exposta no parágrafo anterior, sem qualquer recurso a storytelling, transforma esta obra numa experiência insular, outro caso para gerar, se não amor-ódio, respeito-indiferença. Infelizmente, encontro-me no segundo campo.
A falta de estrutura e narrativa não seriam um total problema, se pelo menos houvesse um desenho de personagens minimamente interessante – e aqui talvez seja um problema pessoal, de estar já bastante habituado a representações queer para a queerness e a abertura relacional e dos corpos destas personagens não ser o suficiente para captar a atenção deste espectador.
Claro que esta ideia de fluidez é precisamente o ponto aqui – eis o problema de traduzir do alemão uma palavra que possa significar casal ou união de grupo, na sequência que dá mote à existência do filme, por assim dizer. Estas quatro personagens principais vivem em conjunto numa comunidade e, apesar da formação de dois casais, é perceptível a tal fluidez de sentimentos, captados pela realizadora Jessie Jeffrey Dunn Rovinelli com câmara à mão em exteriores, ou permitindo, na melhor sequência do filme, conversas paralelas que se cruzam a certo ponto, refletindo a liberdade amorosa do grupo. So Pretty sai-se então com um ensaio demasiado teórico para o seu próprio bem, ao mesmo tempo que assume uma intimidade do espectador com a obra de origem que este escritor assume não existir – e daí também a maior insularidade desta experiência.

André Gonçalves

