«Tarde Para Morir Joven» por André Gonçalves

(Fotos: Divulgação)

O olhar nostálgico sobre a juventude e a passagem pelas indecisões da adolescência rumo a uma nova maturidade está para o cinema indie como o cinema de super-heróis está para o mainstream.

Tal como o cão que desaparece no início do filme por presumivelmente perseguir um carro em movimento que não volta atrás, Dominga Sotomayor parece não querer deixar fugir um passado relativamente distante. Após De Jueves a Domingo, Grande Prémio do IndieLisboa 2012, a realizadora chilena marca presença na competição Silvestre deste ano (após ter arrancado o prémio de Melhor Realização em Locarno) com outra história potencialmente autobiográfica, remexendo em memórias próprias de infância de adolescência.

Estamos nos princípios da década de 90, em Chile; aqui os ecrãs perdem relevância para a rádio a pilhas e cassetes, e a existência de um gerador de eletricidade entra como tópico do dia. Convém situar o espaço e o tempo: estamos afinal nos primeiros anos pós-ditadura de Pinochet. Um grupo de jovens e respetivos progenitores reune-se num verão para passar férias numa quinta. Temos a rapariga rebelde fumadora que eventualmente começa uma relação com um homem mais velho; o rapaz de caracóis ligeiramente geek, mas que sabe tocar guitarra e tem um truque local para fumar e beber ao mesmo tempo; a menina pré-adolescente curiosa que sabe mais do que aparenta… 

São personagens-tipo, mas que não deixam de ter uma existência para além de uma narrativa tradicional, até porque Sotomayor aposta sim numa coleção de momentos como se tivesse reunido postais ou fotografias encontradas no sotão e feito um processo de contextualização, notas soltas sobre uma estação perdida no tempo. Tarde Para Morir Joven é assim um objeto que pede ternura, com o pressuposto que o espectador tenha a abertura para um estilo de narrativa menos interessado em três atos, mas sim separado por um acumular de experiências. Caso contrário, a experiência global pode tornar-se genuinamente entediante… 

André Gonçalves

 

 

 

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