«Entre dos Aguas» por André Gonçalves

(Fotos: Divulgação)

Alguns eventos acompanham-nos como se estivessem tatuados no nosso próprio corpo. Israel, o protagonista deste “drama social”, leva essas marcas a peito, pretendendo demonstrar a sua história no seu tronco, como é aliás tradição nesta zona onde o peixe e a droga chegam com a mesma facilidade. Outro tronco, o de uma árvore, serve também como marca que saltita de uma geração para outra, e assim liga dois pontos temporais que aqui surgem por anunciar. 

Entre Dos Aguas fala-nos de uma irmandade e na ausência de um laço de sangue bem resolvido (entre dois irmãos), a procura de um escape para sobreviver, onde até o evangelismo campestre pode formar uma alternativa temporariamente racional. É esta a realidade em San Fernando: há dois caminhos, as duas águas do título que se cruzam – trabalhar sem proteção legal ou ser um “pirata” dos tempos modernos. Cheito, o outro irmão, optou pela  marinha, já Isra(el) acaba de sair da prisão após ter sido apanhado por tráfico de droga. Juntos, recordam um episódio trágico que os uniu, ao mesmo tempo que acabam por pensar que o outro seguiu 

Se há algo que sobressai, para além do tempo generoso entregue a estas personagens perdidas e restantes secundários (135 minutos), é a forma como Isaki Lacuesta filma estes corpos masculinos, afoitos, tatuados, capazes de tudo para sobreviver, dispostos a saltar de uma ponte como prancha, e simultaneamente, no caso do personagem principal, com orgulho e visão ainda para imaginar um outro cenário. É uma obra que saberá melhor a escrever sobre ela em retrospetiva que a vê-la. Não que o miserabilismo realista atinja propriamente níveis irritantes, mas porque o ponto central é suficientemente repetido –  havendo até duas discussões climáticas quando bastaria uma, só para citar um exemplo. O naturalismo dos atores é até bem-vindo, acaba por nos colocar no mundo externo destes intervenientes, mas faltou porventura um maior distanciamento para saber resumir melhor uma narrativa que aposta mais na contemplação que na ação.   

André Gonçalves 

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