«Seduz-me Se És Capaz» (Long Shot) por André Gonçalves

(Fotos: Divulgação)

Charlize Theron apodera-se de Long Shot como prova de que lhe escapou uma carreira paralela a fazer de namoradinha da América em comédias românticas. É pensar em Notting Hill na Casa Branca aqui, embora a referência que se escolha como explícita aqui seja outro filme de Julia Roberts…

A obra de Jonathan Levine (50/50) arma-se de propósitos políticos iniciais – uma Secretária de Estado que se vê na luta pela Presidência dos Estados Unidos e decide recrutar um jornalista (Seth Rogen, naquela que pode ser a sua interpretação mais madura no papel de Seth Rogen) que conheceu em tempos para ajudar a escrever os seus discursos – para aproveitar todo o tipo de referências de cultura popular (não só política) com o objetivo central de fazer rir o espectador. 

Não deixa de ser curioso que nesta estratégia de contra-programação de Verão, haja também piscadela de olho à Marvel/Disney, a sua “principal concorrente”, num olhar bastante positivo sob a lente do geek cómico de serviço, que assim convence uma poderosa mulher a deixar de se guiar tanto pelas sinopses para ficar a par dos spoilers e da chamadas “conversas de café”, e a experimentar mesmo as obras em primeira mão. Há aqui um traço de auto-ironia neste segmento, dado que Long Shot é também daqueles filmes melhores que a sinopse e respetivo género formulaico prometiam, graças às piadas quase sempre certeiras que vai atirando, numa estética de agradar grandes audiências e até converter um ou outro cínico pelo caminho.

Sejamos tão honestos como a personagem de Charlize se compromete ultimamente a ser: sim, há uma fórmula tão ou mais antiga que o cinema – e não há biscoitos a atribuir para quem adivinhar para onde esta obra nos leva. Tirando este “obstáculo” do caminho, mais a fantasia liberal que lhe segue atrás como sombra, resta-nos duas horas de gargalhadas pouco intervaladas e um leque de personagens secundários mais forte do que dá a parecer à primeira vista, que desculpam por si só a previsibilidade narrativa e a duração ligeiramente excessiva da película.  

 

André Gonçalves

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