
Quando era mais novo, não tinha propriamente amigos. Apenas os meus animais de estimação. A minha mãe nem sequer me permitiu ingressar no clube de xadrez. Solução: “jogar xadrez” com a minha cadela e o meu gato. Kit (Brie Larson) nem sequer conseguiu os animais, logo teve que arranjar um imaginário para com quem jogar damas: um unicórnio. Já em adulta, completamente à deriva, regressada à casa dos pais e refém de um emprego temporário onde se limita a fazer o que os restantes colegas fazem (fotocópias no meio de funcionários cópia), recebe um cartão que a manda para uma loja onde pode pedir tudo o que quer. Em vez de pedir o segredo da juventude eterna, pede algo igualmente surreal para olhos céticos: um unicórnio.
Estreia na realização da “Capitã Marvel”, Unicorn Store estabelece desde cedo uma espécie de auto-retrato colorido e feminino da sua criadora (cheio das cores do arco-íris, sinónimo aqui imediato de imaginação infantil). Aliás, é perante imagens do próprio arquivo pessoal da atriz tornada realizadora que entramos nesta obra. É um filme-persona tão próximo à sua atriz/realizadora (as imagens da própria Larson fundem-se com um autorretrato da protagonista ao vivo numa galeria, mais literal seria impossível), que até nos surpreendemos que o argumento deste tenha sido escrito exclusivamente por outras mãos (Samantha McIntyre)… É que nem falta aqui a temática do assédio sexual, sobre a qual a atriz se tem insurgido de forma ativa, tendo que engolir um sapo quando teve que entregar prémios ao ator Casey Affleck (um dos acusados mais mediáticos), há um par de temporadas atrás.
Talvez antevendo que esta visão, mesmo que fosse bem sucedida, não seria para todos, o argumento salvaguarda-se de estratégias de defesa, pondo a quem se possa opôr a esta visão do mesmo lado que críticos ou professores de arte “idiotas”, ou um grupo de executivos que equipara tal espampanância de purporinas e cores a ser demasiado infantil. É a velha estratégia, por si só infantil (essa é a parte hilariante, aliás, a parte mais hilariante em toda esta obra, que parece estar ela própria deslocada do mundo em redor), de dizer: se não entraste no meu mundo, és uma pessoa que disse adeus à vida, à imaginação.
Se ser infantil significa ter que suspender toda a descrença perante o que está a acontecer, então sim, esta primeira longa-metragem de Larson obriga a voltarmos a ser totalmente crianças, e de preferência sem memórias cinematográficas sobre outras fusões de fantasia e isolamento social, tão melhores, por serem mais focadas que esta nos seus “meros” mas ainda assim sentidos 90 minutos.
Pena portanto que, perante um elenco classe A que tenta salvar o navio, no qual se inclui a própria Brie, e uma realização que dá sinais de quem estudou minimamente a arte, Unicorn Store não nos consiga levar com ele através da porta mágica. Pode efetivamente apelar a um lado mais pessoal de outras eternas crianças abandonadas à procura do seu unicórnio, mas falta-lhe, na opinião deste escritor, a estrutura necessária para transformar estas histórias pessoais (das quais até me revejo, conforme descrito no primeiro parágrafo) em catarse.

André Gonçalves

