
Não deixa de ser algo surpreendente a opção do realizador Vicente Alves do Ó em trilhar o percurso da comédia popularucha e televisiva com o seu novo filme, O Amor é Lindo… Porque Sim!, ainda que o desejo de obter sucesso comercial e retorno financeiro seja legítimo. Seja como for, assinala-se aqui uma clara inversão do perfil e da substância bem mais cinematográficos marcados pelos anteriores Quinze Pontos na Alma, com uma boa direção de Rita Loureiro, e Florbela, num excelente trabalho de Dalila Carmo. De resto, sublinhado pela sua longa experiência de argumentista, em cinema e televisão.
Ficamos, por isso, um pouco baralhados com a opção narrativa de Alves do Ó em navegar a onda dos blockbusters à portuguesa, no que parece ser uma remix da moda com as novas versões do Pátio das Cantigas e O Leão da Estrela, embalada pela produção de Ivan Coletti, com larga experiência na Plural e na saga Morangos com Açúcar.
Nada a dizer das ambições do realizador em habilitar-se a convencer o público televisivo a sair à rua para ver esta sua comédia romântica e até trazendo consigo a turma inteira dos seus alunos da escola de atores Act (a mesma de onde saiu a excelente atriz Anabela Moreira). Embora nos pareça algo estranho que a primeira experiência a sério deste grupo venha a ser o cinema feito televisão. A menos que a estes novos atores lhes agrade mais a entrada no mercado das telenovelas, algo que parece confirmar-se quando alguém diz no filme se conseguisse entrar numa novela tinha a vida resolvida. Se assim for, tudo bem. Mas adiante.
E o que temos então em O Amor é Lindo… Porque Sim!? Temos a menina Amélia (Inês Patrício) que vê o namorado (João Maria) trocá-la no dia de aniversário por ‘outra’ durante uma cena canalha, mas que logo arranja trabalho numa tasca e assim que abre o bico de rouxinol vê meio mundo render-se aos seus encantos da fadista. Ele é o toureiro Bubu, um beto alentejano que desata a chorar assim que a pequena abre o bico; ele é um jogador de futebol de um tal clube azul da capital que deixa de marcar golos quando ela lhe dá com os pés; ele é ainda os desaires amorosos do próprio fotógrafo paparazzo e até um anónimo graffiter, cujo tag era deixar frases românticas bacanas, como… O Amor é Lindo… Porque Sim!
É claro que, entre o grupo de alunos da Act, temos alguns atores profissionais que seguram as pontas desta comédia à portuguesa mais empenhada em fazer-nos rir à força do que a surpreender-nos com algum humor inesperado. Como sempre a muito experiente Maria Rueff responde com o ‘boneco’ que lhe calhar, aqui no papel da cartomante Gigi, mãe de Amélia e muito devota de Sto. António, que haverá de a acompanhar à ganadaria de Bubu, bem como a sua outra filha, uma atriz indie, e privar com a mãe benzoca (Silvia Rizzo) e muito gin lover, numa réplica perigosa, por isso sem graça, à personagem de Alexandra Lencastre em O Leão da Estrela, de Leonel Vieira. E haverá ainda a psicóloga Dalila (Ana Brito e Cunha) que quase terá um afrontamento depois de lidar com a fartura de pretendentes da Amélita. Ela que quase não via homem “vai para cima de dois anos”.
Lá está, pode ser que no papel, a trama de O Amor é Lindo… Porque Sim! até possa fazer algum sentido. E ter até alguma piada. No entanto, durante a sessão de imprensa, percebemos como o desamparo dos inúmeros gags de humor televisivo ansiavam pelo calor da sala lá de casa e da família reunida em redor do ecrã mágico.
Vejamos, o desencanto deste Amor não pode sequer ser atribuído à visível inexperiência de grande parte dos atores, nem sequer à falta de talento de Alves do Ó. Aparentemente, o produto desejado é o produto devolvido aos espetadores, na tal tentativa de trazer o público televisivo para os cinemas. Em si a atitude até é muito nobre. Não se pode é dizer que o resultado seja satisfatório. É apenas assim. Porque sim!
O melhor: A ideia de saber que a turma do curso de representação da Act acabou o curso e tem já algo no seu currículo.
O pior: A ideia de tentar engendrar um meta-género do cinema português dentro do estilo blockbuster televisivo.

Paulo Portugal

