«In the Heart of Sea» (No Coração do Mar) por Hugo Gomes

(Fotos: Divulgação)

Apollo 13, Cinderella Man, Rush, Uma Mente Brilhante e agora este No Coração do Mar. É identificável o apetite voraz de Ron Howard por histórias incríveis, até mais impressionantes que o próprio processo de adaptação. Eis um cineasta que traz bons ventos às suas criações e com faro para colaborações, mas infelizmente sem a qualidade técnica necessária para se distinguir entre os artesãos de Hollywood.

Sobre a sua nova obra, No Coração do Mar, Howard entra num jogo de duas camadas: A da história (vendida como) real sobre a trágica ocorrência em torno do Essex, um baleeiro que naufragou em 1820, deixando a sua tripulação à mercê do Oceano e sob a maldição de um fantasma vingativo na forma de cachalote (obra do diabo, como o caraterizaram); e a adaptação dessa “realidade”, com referências a Moby Dick, o clássico literário de Herman Melville, que surgiu na sequência desta “história verídica” .

Em todo o caso, este é um filme que assume seguir os acontecimentos descritos mas que aspira a ultrapassar as ditas recontagens. Sendo um cruzamento entre a história do Essex e a de Moby Dick, Howard volta a ganhar através das suas escolhas felizes, direcionando os holofotes para a tripulação infortunada em vez de se focar no astro monstruoso. Ainda assim, o  filme é enfraquecido pela grandiloquência do espetáculo cinematográfico que o cineasta e o estúdio querem forçosamente inserir, desprezando o trabalho dos atores, em especial o esforço conseguido, quer interpretativo, quer físico, de Chris Hemsworth, um ator provavelmente convencido de que ser somente conhecido como Thor não lhe traz vantagens artísticas para a carreira.

Por outras palavras, existe aqui uma carência emocional e psicológica das personagens em prol do arquétipo de aventura, com tecnologia em bruto à mistura, “como manda a sapatilha”. Nesses termos, e visto não existirem tantas opções nos últimos 12 anos, No Coração do Mar consegue ser a mais entusiasmante aventura náutica desde que Peter Weir navegou com Russell Crowe em Master & Commander – O Lado Longínquo do Mundo.

A nível técnico não existe nada a apontar. É cinema vistoso com aspirações para mais, mas com a incapacidade em torná-las uma realidade. De certa forma, é como o baleeiro que persegue a baleia branca, obsessivo mas reduzido às suas competências enquanto humano. Uma dessas limitações é a sua constante vontade em requisitar o moralismo, um pouco justificável para os tempos que decorrem, onde o politicamente correto parece fazer parte das agendas de Hollywood. Isto porque até não é fácil atribuir o protagonismo, de certa forma heroica, a caçadores de baleias. Mas isso são outras guerras, porque no cinema, este No Coração do Mar apenas existe como resposta alternativa para uma enésima adaptação do livro de Melville.

Resumindo e concluindo, a história é incrível, o filme … nem por isso.

O melhor – Efeitos sonoros e visuais, o esforço de Chris Hemsworth
O pior – o constante moralismo, a fraca aptidão psicológica e emocional das personagens


Hugo Gomes

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