«Infinitely Polar Bear» (Amor Polar) por Virgílio Jesus

(Fotos: Divulgação)

A estreia de Maya Forbes na realização, após os trabalhos por exemplo enquanto argumentista no filme de animação Monstros vs. Aliens, é uma comédia dramática independente da Sony Pictures Classics, que insere duas célebres estrelas americanas Mark Ruffalo e Zoe Saldana num ambiente mais caseiro, familiar e despretensioso.

Cameron (Mark Ruffalo) e Maggie (Zoe Saldana) conheceram-se durante o agitado ambiente dos anos 60 (dominado pelo conflito armado da Guerra Fria). Cedo o namoro transformou-se em algo mais e imediatamente casaram e tiveram duas filhas, Amelia (Imogene Wolodarsky) e Faith (Ashley Aufderheide). Nem tudo à partida seria perfeito, pois o protagonista é um maníaco-depressivo, que dificilmente consegue controlar a doença. Após passar algum tempo internado num hospital psiquiátrico, Cameron promete ser melhor pai e melhor companheiro, mas quando menos espera Maggie confronta-o com as condições precárias de vida que leva. De modo a resolver a situação, Maggie decide voltar a estudar (forma-se em Administração de Negócios em Nova-Iorque) e entrega as suas filhas ao cuidado do marido.

Nos primeiros minutos, Cameron até pode ser bastante desajeitado e ainda envergonha as filhas junto aos vizinhos e colegas de escola, mas sempre tenta oferecer os melhores momentos infantis a Amelia e Faith, lutando persistentemente pelo amor da sua mulher. Todos os momentos evocam a sua bipolaridade, por isso o espectador é também obrigado a lidar com a problemática. A excentricidade do desempenho de Ruffalo é imprescindível à parte cómica da trama – a personagem principal sai da sua zona de conforto, por exemplo quando necessita de contactar com o mundo exterior e deixa as suas filhas sozinhas em casa (que temem a invasão de um violador).

Amor Polar demonstra exemplarmente a transição do ambiente dito mais social dos anos 60 para outro eminentemente familiar – a sequência inicial é toda ela filmada com uma câmara Super-8 que esteve muito em voga nos anos 70/80. Para acrescentar ao facto, o homem é transformado em “dona-de-casa”, papel que até então estava à cargo da mulher – que surge emancipada, condição que se disseminou e está presente ainda nos dias de hoje. Outro aspeto é a chamada de atenção às supostas ‘diferenças’ do casal – Cameron provém de uma das mais abastadas famílias dos Estados Unidos da América e Maggie de classe social baixa, ele é branco e ela é negra – por isso, a narrativa transpõe claramente o contexto vivenciado.

Interessante é também observar a homenagem a Shining, de Stanley Kubrick (no momento em que as crianças estão no corredor com o seu olhar manipulador) e ao seu protagonista, Jack Nicholson, que tão bem apresentou um transtorno obsessivo-compulsivo no filme Melhor é Impossível, de James L. Brooks. Curiosamente, Maya Forbes baseou-se na sua própria experiência pessoal, quando ela e a sua irmã tiveram que morar com o seu pai para que a sua mãe fosse para Nova Iorque terminar o seu MBA. Por fim, este Amor (bi)Polar é um daqueles “feel-good movies” que o fará repensar, ainda que de forma mais leve, sobre os cuidados e atenção sobre as questões paternais e ainda oferece uma nova Zoe Saldana longe do mundo de super-heróica (Star Trek, Guardiões da Galáxia) que estamos tão cansados de ver.

O melhor – Mark Ruffalo confirma outra vez o seu talento, e há um novo rumo para a carreira de Zoe Saldana.
O pior – Este contexto familiar já foi tão explorado que, de certo modo, já sabemos o happy-ending que nos aguarda.


Virgílio Jesus

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